sábado, 22 de fevereiro de 2025

UM PAÍS EM ROTA DE COLISÃO COM O FRACASSO

A geração Z não estava viva quando o projeto de dominação e poder começou no Brasil.

Há muitos anos começaram a surgir no BR centenas de faculdades particulares.

As chamadas "pagou-passou", como ainda são rotuladas algumas faculdades particulares no seu alvorecer, contribuíram muito para o processo de assoreamento da educação brasileira, levando ao surgimento de um tipo muito perigoso.

O sujeito que acha que aprendeu algo relevante.

Se não estivéssemos vivendo esse empobrecimento educacional, eu não precisaria escrever este parágrafo, mas ei-lo: não são todas as faculdades particulares, há instituições sérias que fazem um bom trabalho com seu corpo discente.

Na outra extremidade dessa régua, temos as vendedoras de diplomas. Mas esse sucateamento não é privilégio das particulares, basta buscar no Google: "doutorados inúteis no Brasil" e você descobrirá como o dinheiro do contribuinte é sistematicamente desperdiçado em universidades públicas.

Também verá como uma pessoa pode parecer intelectual decorando as palavras certas, como por exemplo: "as dinâmicas das interações"; "fulano é um feixe de relações..." e a expressão que eu mais gosto: "processos multissemióticos".

O Brasil de hoje é o resultado de um longo e meticuloso trabalho de vulgarização do título acadêmico e de desertificação da produção científica e tecnológica.

Ninguém mais tem conversas profundas sobre nada. Fala-se apenas de pessoas, eventos e coisas. O mundo das ideias espatifou-se em cosmos individuais indiscutíveis. Hoje em dia uma pessoa pode usar publicamente a expressão "a minha verdade" sem parecer um imbecil.

Esse é um território já conquistado. Salvo honrosas exceções, basta dois minutos de conversa com um egresso do ensino médio para perceber o sucesso da primeira fase do projeto.

Hoje estamos na metade da segunda fase: dividir os seres humanos em pessoas do mal e pessoas do bem. E o mundo já dá claros sinais do sucesso dessa nova fase. Em muitos lares no BR e ao redor do mundo já temos um elefante na sala, como dizem os norte-americanos. Um tabu, um assunto no qual não podemos tocar.

E por se tratar de um projeto de poder, a política foi o condutor óbvio desse projeto. Por isso vivemos divididos em dois grandes grupos: a seita dos extremistas de esquerda e a seita dos extremistas de direita. Com a educação enfraquecida, nos faltam habilidades para a mínima compreensão da complexidade dos espectros políticos. 

Mas para o afegão médio não há espectro, é binário. Nós contra vocês.

Então o que nos resta é orar por dois milagres: primeiro, que esse projeto dê errado em algum ponto. O que, por si só me parece um caminho sem volta. E segundo, que surja diante de nós a oportunidade de trilharmos o caminho de volta.

Talvez levemos duas ou três gerações até conseguirmos tomar o caminho do verdadeiro crescimento como povo e nação. Coisa que aparentemente nunca fizemos.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

OS VENTOS DA MODERNIDADE


O ar-condicionado é uma maravilha da ciência. Há algum tempo, eles ganharam a tecnologia do inversor, que mantém o compressor funcionando em baixa rotação, evitando os "trancos" de energia do liga-desliga.

Mas não vamos esquecer do querido ventilador, que segurou a barra de resfriar o ambiente durante muitos anos. É sobre ele que eu gostaria de tecer alguns comentários.

Sou nativo de uma cidade quente do Nordeste, mas hoje moro em uma cidade de clima mais ameno, que chega a ficar bem friozinho em alguns meses do ano. Sendo assim, o ar-condicionado por aqui acabou virando, de certa forma, um artigo de luxo. No verão, a cidade não vira um forno a céu aberto como na minha cidade natal, mas certamente justifica comprar o rapazinho que passa a noite como se estivesse assistindo a uma partida de tênis.

De mesa, de pedestal ou de parede, o ventilador traz uma função extra - tornar impraticáveis as condições de voo dos mosquitos (muriçocas na minha cidade).

É claro que o maravilhoso ar-condicionado também cumpre essa função, já que os mosquitos não conseguem levantar voo com os pesados agasalhos que precisam vestir para não morrer de hipotermia.

Mas uma coisa que pouca gente percebe, é que o ventilador expressa de forma discreta, como a nossa sociedade “perdeu a mão” quando o assunto é oferecer um bom produto.

Tirando as pessoas que conseguem dormir na Marquês de Sapucaí em pleno desfile carioca ou na cerimônia da troca da bandeira em Brasília. O silêncio tem um papel importante no sono da maioria das pessoas.

Quando fui comprar um ventilador para amenizar os efeitos do curto verão centro-planaltino, percebi que os silenciosos ventiladores lentos, de pás mais largas e inclinadas, praticamente desapareceram. Nas lojas só é possível comprar versões reduzidas de hélices de aviões. E quanto mais veloz e mais vento produz, mais valorizado ele é.

Se você procurar por “ventiladores de baixa rotação” na internet, as primeiras centenas de respostas tratam de defeitos e como fazer para que ele volte a apagar velas de bolo a 300 metros de distância.

O consumidor já foi convencido disso. Parece que ninguém quer um ventilador silencioso, que sopre um bom volume de vento, apenas suficiente apenas para amenizar o calor e prejudicar as condições de voo das pequenas hematófagas aladas – Não!

As pessoas querem um tornado dentro do quarto, fazendo com que todas as bolas de poeira que repousam calmamente sob a cama comecem a flutuar numa grande valsa de rinite e coriza.

Como minha mente não para, percebi que os ventiladores de hoje são um epítome da sociedade de consumo e seu jeito superficial de pensar:

- Se o ventilador ventila, então quanto mais ventilar melhor.

Mas do que eu estou falando? Estou ultrapassado demais para acompanhar as tendências e necessidades da era da tecnologia. Isso não passa de saudosismo!

Será?

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

PRESO POR UM COPO D'ÁGUA

Ocorreu um grande roubo a banco. Não houve um só veículo de comunicação no país que não comentasse o assunto. O que mais chamou a atenção de todos foi a quantia recorde e o fato de não ter sido disparado um único tiro.

Virou o assunto do momento: mesa de bar, churrasco da família, aniversários e até reuniões em grandes empresas eram palco para conversas animadas sobre criminologistas de araque, investigadores de geladeira e gente confessando os sonhos que realizaria com o montante roubado.

Especialistas de internet, então, surgiram às centenas, dando suas versões mirabolantes de como tudo teria sido feito tendo as "vozes em suas cabeças" como fonte principal.

Passados cinco anos, as investigações não avançaram. O que se sabia àquela altura era o mesmo que se sabia horas após o roubo: um único homem, entre meio-dia e três horas da tarde, levou uma quantia absurda de dinheiro que só ficaria naquele banco por vinte e quatro horas. Ninguém havia visto, ouvido ou sabia de nada.

A cidade de Piraíba do Sena é uma dessas cidades minúsculas cujas edificações mais relevantes são a prefeitura, a igreja e a praça. O prédio mais alto da cidade é a sede do único comércio de secos de molhados da cidade: o Mercadão Sena. A cidade ganhou esse nome por causa do finado Aristides Sena, o primeiro prefeito da cidade.

A história que se conta é que o nome da cidade se deve a uma Piraíba de três metros pescada pelo então jovem Aristides quando ainda não tinha aspirações políticas.

No dia seguinte ao aniversário de cinco anos do famigerado roubo, um sedã de luxo para em frente ao bar do Correia. Do banco de trás do carro sai um homem bem vestido que se dirige à mesa onde bebem três piraibenses e lhes pergunta: quem é que manda nesta cidade? Os três se entreolham e um deles responde:

- O prefeito é o dr. V...
- Não, não, eu perguntei quem é que manda na cidade.
- Tem o delegado Pompeu e o padre Tomás.
- Não, eu quero saber é quem manda mesmo aqui. Quem manda no prefeito e no padre.
- Ah, então o senhor quer falar é com a dona Ernestina, mulher do prefeito - diz mais um dos piraibenses à mesa.

Depois da gargalhada geral, um dos homens à mesa franze o cenho e diz:

- O senhor quer falar é o com o dr. Luiz Antônio Sena, neto do velho Arisitides, que Deus o tenha (todos à mesa fazem o sinal da cruz). Ele é o herdeiro do "véio". É dono do maior comércio daqui e da maioria das casas de Piraíba. Inclusive da que está alugada para a amante do prefeito (riso geral). Ele ainda é dono do posto de gasolina na saída da cidade e da fazenda que fica atrás daquele morro ali (apontando para o morro).

- Então é com ele que eu quero falar. Onde ele mora?

- Na casa dele é difícil o senhor achar o homem. A maneira mais fácil de falar com ele é sexta-feira no bar de Zefinha Ferraz é lá que ele se encontra com o prefeito. Dizem as más línguas que até o padre já foi visto na mesa deles no bar de Zefinha. Como hoje é sexta-feira, é capaz do senhor encontrar ele por lá.

Ao cair da noite, o homem entra no bar e imediatamente nota uma mesa onde estão sentados três homens, cada um com uma mulher no colo. Como era a única mesa sobre a qual havia uma garrafa de uísque e eram os homens mais bem vestidos do local, percebeu que não precisava perguntar nada a ninguém.

À medida que dispensava, até com certa rudeza, as investidas das "funcionárias" de Zefinha Ferraz, caminhou reto em direção à mesa deles. Quando foi notado, abriu um sorriso e estendeu a mão ao homem à direita cumprimentando os outros dois em seguida. Após ser convidado a sentar à mesa e identificar-se formulou sua proposta aos três:

Abriu um aplicativo de um banco estrangeiro, estendeu seu celular em direção ao rosto de cada um e disse:

- Vou direto ao ponto: tenho nove milhões de reais em minha conta, são três milhões para cada um. A única coisa que preciso é que os moradores da cidade confirmem que nasci, cresci e moro nesta cidade caso apareça alguém perguntando.

Os homens arregalaram os olhos, se entreolharam e começaram a falar:

- O primeiro disse: eu sou Valdeci Pestana, prefeito de Piraíba do Sena, passe na segunda-feira na prefeitura para receber seu histórico escolar. Para todos os efeitos, o senhor estudou na E.M. Cremilda Sena do fundamental ao médio.

- O segundo disse: eu sou o padre Tomás, passe na segunda-feira na paróquia para receber sua certidão de batismo.

- O terceiro, mais falante, disse: meu nome é Luiz Antônio Sena, sou neto do homem que praticamente fundou desta cidade. Aqui, quem não trabalha pra mim, aluga uma das minhas casas. Não é meu prefeito? Perguntou sorrindo.

Na segunda-feira o senhor, por favor, ande pela cidade. O senhor só vai encontrar dois tipos de pessoa: gente que lembra do senhor brincando na rua quando criança e gente que foi seu contemporâneo na escola. Se o senhor não se importar, é capaz de ter até uma ou duas funcionárias minhas prontas a confidenciar sobre um namoro com o senhor no passado ao primeiro que perguntar.

Após fechar o acordo e sair do bar, pensou: esse acordo foi uma pechinha.

Na segunda-feira pela manhã, chegam à cidade centenas de repórteres e policiais.

Seguia à pé, algemado e escoltado até a viatura da polícia imaginando qual dos três o havia traído. Ao levantar a cabeça vê a dona do bar, Zefinha Ferraz no meio da praça, dando entrevista a uma repórter:

Uma das minhas funcionárias ouviu toda a conversa, moça. Depois que ele saiu, cheguei na mesa dos três e disse: quem manda nesta cidade sou eu! Se vocês fizerem alguma coisa para ajudar esse mão-de-vaca, na segunda-feira as mulheres dos dois e o bispo vão saber onde vocês se encontram na sexta-feira à noite. Como é que esse sujeito entra no meu estabelecimento, trata mal minhas funcionárias, senta na mesma mesa de Valdeci, Tomás e Luizinho, meus clientes VIP há anos e não pede um copo d'água? Não deixei barato!

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

É BOM SER CANHOTO?

A década de 70 havia começado há apenas 190 dias quando eu vim ao mundo. Felizmente, nessa época, os pais e professores já não obrigavam mais os filhos a usar a mão direita, isso era coisa do passado.

Embora na minha juventude eu tenha conhecido pessoas que haviam sido obrigadas a usar a mão direita na sua fase escolar, essas pessoas eram mais velhas que eu e foram educadas em outra época. Eram tempos com menos conhecimento, e as crianças apenas seguiam as ordens dos mais velhos sem questionar. Enfim, eram tempos mais duros para as crianças.

Então eu cresci canhoto de braços e pernas. Quando ia escrever, era com a mão esquerda, na hora da bola, do futebol no campinho, o chute só saia com a perna esquerda. A direita não servia nem para dar um passe decente no futebol. Como o jogo era descalço, era comum eu voltar para casa com o pé direito mais limpo que o esquerdo.

Somente na escola eu comecei a sentir alguma dificuldade em ser canhoto. O problema não apareceu nos primeiros anos escolares, afinal sentávamos numa pequena mesa redonda no jardim de infância e quando começamos a sentar em fileiras, as carteiras eram de dois lugares.

Mas isso só durou até os três primeiros anos do que se chamava naquela época de primário. Nos anos seguintes, as carteiras seguiram individuais até o final do ensino médio (antigo segundo grau) e eu tive que me adaptar.

Apesar de ser uma ótima escola, estávamos vivendo os primórdios da administração. Informações dessa natureza sobre os alunos não eram levadas em consideração. A escola distribuía algumas poucas carteiras para canhoto em algumas salas, mas era muito raro eu sentar em uma. Até porque, essa era uma descoberta que acontecia no primeiro dia do ano letivo. Se não havia carteiras para canhotos na sala naquele ano, essa seria a realidade até o ano letivo seguinte.

Com o passar dos anos eu desisti da carteira para canhoto e me adaptei ao uso da carteira para destro. Naquela época, o tampo pequeno obrigava os canhotos a ficarem levemente curvados para a direita para escrever sobre a carteira.

Mas isso não me causou prejuízo nem a curto ou a longo prazo. Naquela época de tantas descobertas, ficava tão inquieto fisicamente quanto mentalmente. Era preciso fazer muito esforço para prestar atenção na aula com o mundo acontecendo à minha volta.

Com o passar do tempo eu descobri que meu hiperfoco só acontece no silêncio. Qualquer música ou conversa rouba a minha atenção completamente. Dependendo da intensidade do ruído, seja conversa, música ou obra, o máximo que eu consigo é um foco intermitente ou de baixa qualidade. Imagine então naquela época, na companhia de dezenas de adolescentes como eu?

Então era mais fácil ficar com o fundilho da calça polido de tanto sambar na carteira olhando para todas as direções, do que com algum tipo de dor física por estar usando uma carteira para destro. Naquela época eu não sabia o que era ficar dolorido depois de horas sentado na cadeira.

Mão esquerda suja de grafite
Uma outra coisa que ficava com o aspecto polido era a parte externa da mão esquerda até o dedo mindinho. Esse ficava grafitado! Os canhotos, em sua maioria, apoiam a mão sobre o que acabaram de escrever. E como o uso do lápis era frequente, essa parte da mão ficava com um tom cinza-prateado.

Eu nunca tive a curiosidade em saber mais sobre ser canhoto. Só sei que os hemisférios cerebrais têm suas funções trocadas e só. Atividades que exigem o uso das duas mãos como os teclados de computadores e a condução de veículos são aprendidas com a mesma facilidade que os destros, não há vantagem ou desvantagem.

Só tem uma coisa que me incomoda. É quando eu estou usando uma ferramenta ou realizando alguma atividade manual mais complexa perto de um destro ansioso que confunde a minha habilidade com a minha mão esquerda com a (falta de) habilidade da mão esquerda dele.

Eu normalmente interrompo o que estou fazendo e cedo a vez ao destro. Não adianta explicar que um canhoto é tão hábil quanto um destro, ele já foi vencido pela crença de que o motivo da aflição dele é porque eu uso a "mão errada" ou estou fazendo tudo "trocado".

Com o tempo, nossas habilidades se expandem e o nosso lado direito se desenvolve. Não tanto quanto o esquerdo, mas como um coadjuvante aprimorado e e cada vez mais útil nas tarefas do dia-a-dia. Se tenho um lado direito em mim, este permanece no âmbito dos pensamentos para evitar conflitos desnecessários.

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

SEM CAFÉ, SEM MEIAS

As manhãs para mim são sempre um desafio. Eu sempre preciso acordar mais cedo, cerca de meia hora antes de levantar para que as coisas comecem a fazer algum sentido. Do contrário sou capaz de situações como colocar a água na cafeteira e esquecer de colocar o pó de café.

Eram cinco e meia da manhã e o despertador tocou impiedosamente anunciando o início de mais um dia de trabalho. Nem o sol havia decidido levantar-se ainda e eu, ainda meio sonolento, dei bom dia para minha mulher e corri para o chuveiro - o único lugar capaz de espantar aquela sensação de "corpo andando pela casa e alma na cama".

No entanto, uma batalha mental estava prestes a começar, e eu não fazia a menor ideia.

Após um banho levemente frio, o ritual matinal transcorreu sem maiores percalços. Barba, dentes, desodorante, perfume e marchei, determinado, rumo ao guarda-roupa para escolher uma roupa decente. Tudo estava indo bem até chegar aos pés. Quando abri a gaveta onde as minhas meias habitualmente dividem espaço com as minhas cuecas, parecia que eu havia aberto a gaveta do Bozo.

Não que eu estivesse surpreso com as minhas meias de cores vibrantes. Acontece que eu não poderia ir ao trabalho com nenhuma daquelas meias. Não queria correr o risco de me sentar em alguma poltrona baixa e revelar uma meia preta cheia de alienígenas verdes ou uma meia listrada de vermelho amarelo e roxo. E essas são as mais discretas.

Já as minhas meias sociais, as escolhas óbvias para aquela circunstância, estavam todas desacompanhadas dos seus respectivos pares. Haviam se evaporado como se tivessem se divorciado dos seus cônjuges e ido embora de casa. Ou como se tivessem sido levadas através da plataforma 9 ¾ na estação King's Cross a fim de libertar um grupo de Elfos domésticos no universo de Harry Potter.

Minha mulher é uma pessoa muito organizada. Ainda não havia passado um ano de casamento quando ela me "presenteou compulsoriamente" com uma daquelas colmeias de organizar meias e cuecas. Só que nos nichos daquela colmeia não havia sequer um pé cinza escuro e outro preto de meias sociais para cogitar tal possibilidade. Eram apenas meias pretas e brancas solitárias em seus nichos. Era isso ou algum par das minhas meias nada discretas.

Percebendo que aquela decisão poderia me fazer perder minutos importantes, fui para a cozinha, me servi do café e me sentei à mesa para o habitual desjejum com a minha esposa enquanto decidia o que separaria meus pés do couro do sapato.

Foi aí que eu descobri, na prática, os benefícios do café quando se trata de estimular o raciocínio e a memória. Me vi fazendo parte da legião de pessoas que dizem só acordar após tomar café.

Há dois dias, em pleno sábado de arrumação e lavagem de roupa, peguei as meias que a minha mulher havia deixado sobre a cama para eu guardar e, por preguiça na pressa, coloquei os pés em nichos diferentes. Com o cérebro, ainda esquentando as válvulas como as antigas tevês de tubo, não me dei conta de que se tratava de pés de meias iguais guardados em nichos diferentes.

Sorri de mim mesmo discretamente enquanto tomava mais um gole de café. Talvez tentando esconder o riso atrás da caneca, ou quem sabe aproveitei o gesto de soprar o café para conter a risada.

Passada a vontade de dar uma gargalhada, olhei para a minha mulher com um resto de sorriso no rosto e disse: 

Bom dia, amor. Acabei de acordar!

Aluguei essa quitinete da mente dela e segui com a vida.

quarta-feira, 19 de julho de 2023

ONDE FOI PARAR A VERDADE?

Passeando pelos "Shorts" do YouTube (já que por algum motivo totalmente desconhecido a Meta decidiu que eu não veria mais Reels em sequência), vi um vídeo curto de um senhor bem vestido, aparentemente dando uma palestra onde explica que a rede de fast-food McDonald's usa apenas um tipo específico de batata para toda a sua rede de lojas. A Russet Burbank, uma batata de corpo mais alongado que as demais batatas e muito difícil de serem cultivadas. A escolha dessa variedade específica está no apelo visual das batatas fritas saindo em forma de buquê de dentro da caixinha vermelha.
https://www.gurneys.com/product/potato-russett-burbank-2-lb
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Ainda segundo o palestrante, o controle de qualidade da rede McDonald's é muito criterioso na aquisição das suas batatas, que não podem apresentar manchas. No entanto, é muito comum aparecerem manchas e pontos marrons nessa variedade de batata. Essas manchas, citadas no vídeo como net necrosis (necrose líquida, segundo o Google Tradutor), tiram o valor comercial das batatas para o McDonald's. O que traz um grande prejuízo ao produtor.

De acordo com o palestrante, para que as batatas nasçam sem essas manchas os fazendeiros utilizam um defensivo agrícola chamado Monitor. Esse defensivo agrícola é tão prejudicial a saúde que os funcionários das fazendas onde esse produto é usado são proibidos de percorrer a lavoura após sua aplicação.

Como achei um absurdo estarmos ingerindo um produto químico tão perigoso, fui atrás da confirmação dessas informações para saber se há um estudo sobre a toxicidade dos resíduos encontrados no produto final (a batata frita do McDonald's) e achei uma matéria no politifact.com - um desses sites que verificam fake news.

A matéria não fala especificamente do Shorts que eu vi no YouTube, fala de um vídeo publicado no Instagram e já retirado do ar, mas cita o Michael Pollan, o mesmo senhor que aparece no vídeo do Shorts, como o protagonista do vídeo no Instagram.
E o site faz as seguintes afirmações:
  • O vídeo do Instagram em questão foi marcado como parte de um esforço do Facebook em coibir notícias falsas e desinformação e por isso foi retirado do ar.
  • O defensivo agrícola em questão realmente impede a circulação de pessoas na lavoura de batatas pelos próximos 5 dias à sua aplicação.
  • A Bayer, fabricante do defensivo, solicitou o cancelamento do registro do defensivo em 2009 na Agência de Proteção ao Meio-Ambiente, órgão dos EUA provavelmente análogo ao IBAMA. E como o vídeo é de 2013, trata-se de informação falsa.
Esse é um exemplo bastante expressivo de como voltamos a nos tornar reféns da dúvida.

Antes das redes sociais se tornarem uma plataforma onde todos podem opinar e os celulares, combinados com planos de internet mais robustos, se tornarem uma agência de notícias de bolso, dependíamos da idoneidade de jornais, telejornais e revistas.

O boca-a-boca era respaldado apenas pela confiança do interlocutor. Se o telejornal dissesse o contrário virava fofoca.

Nesse tempo inocente, a idoneidade dos meios de comunicação era inquestionável, a frase "deu no jornal tal" era a confirmação de que se tratava de algo verdadeiro.

Hoje em dia, as agências de notícias independentes nos mostraram que, como toda empresa, os meios de comunicação sempre tiveram seus interesses particulares que, dependendo da notícia, transformavam um "sim" num "não" ou o "certo" no "errado" e vice-versa.

Destituídos do status de instituição ilibada e vendo a verdade ser escancarada em outros meios de comunicação independentes, a única saída foi inundar as redes sociais e sites de notícia com versões e mais versões dos fatos.

Mesmo não sendo de forma explícita, o que os meios de comunicação fazem hoje em dia segue a seguinte linha de raciocínio: "Já que eu não tenho mais credibilidade absoluta, ninguém mais a terá".

Então essa notícia das batatas envenenadas do McDonald's é cheia de lacunas:
  • O vídeo não fala que são 5 dias sem pisar na lavoura após a aplicação do produto, quem fala é o site de verificação.
  • Esse mesmo site que checou os fatos diz que a postagem é de 2013, mas não diz que a palestra foi gravada em 2013.
  • Segundo o site, a Bayer cancelou o registro do Monitor, mas não diz se as fazendas pararam de usar o mesmo produto de outros fabricantes.
  • O que é relevante para o consumidor de batata frita do McDonald's não é se o vídeo é antes ou depois do cancelamento do registro do produto, mas durante quanto tempo foi utilizado e quais os riscos à saúde dos consumidores.
  • Outro fato relevante para o consumidor é: existem outras redes de fast-food usando a mesma batata e o mesmo defensivo agrícola?
E assim as notícias vêm e vão, cheias de lacunas, de fatos distorcidos e de mudanças de foco.

Voltamos ao tempo em que a certeza da verdade não estava ao nosso alcance. A única diferença é que  hoje ela não está nas mãos de ninguém e ao mesmo tempo nas mãos de todos. Cada um com o seu fragmento.

Nos resta escolher nossa fonte de notícias, por algum tipo de afinidade ou relevância nas redes sociais, o que, nem de longe é garantia de fidelidade narrativa.

Mas não se anime!

Caso sua fonte se torne conhecida demais, influente demais ou tenha mais seguidores, mais likes, mais views, mais compartilhamentos ou mais engajamento que a média, será furiosamente mergulhado no brejo onde jazem, quase sem credibilidade, todos os meios de comunicação atuais.

Fontes:

quarta-feira, 12 de julho de 2023

ETARISMO: QUAL É A BRONCA?

Ficar velho está longe de ser a pior coisa da vida. É claro que a juventude, o saudoso tônus muscular de antigamente, o colágeno, a agilidade e a coordenação motora fina fazem falta. Mas isso está longe de ser uma reclamação, afinal tenho saúde, vitalidade e não tenho limitações físicas além da miopia que me acompanhou a vida toda. Sendo assim, esta não conta como limitação já que vejo o mundo através de lentes corretivas desde que me entendo por gente.

No entanto, é raríssimo encontrar pessoas que já passaram dos 40 ou 50 anos que nunca tenham sequer pensado ou dito algo parecido com: "Eu mais jovem (ou com x anos), com a cabeça que tenho hoje...", seguido de algumas observações sobre os diferentes rumos que dariam às suas vidas caso não fossem inexperientes ou imaturos demais para enxergar a má escolha que fizeram no passado.

Já digo logo, não vou entrar na discussão metafísica que essa ideia suscita. É óbvio que a maturidade vem com o tempo. Além disso, existem centenas de paradoxos temporais exaustivamente explorados no cinema e na literatura mostrando que a vida vivida é melhor que a vida sonhada. E obviamente eu seria um jovem muito estranho se isso fosse possível. Mas não é disso que se trata, eu é que divaguei um pouco, me desculpe.

Como o próprio título da postagem diz, não é sobre ficar velho, é sobre como os "enta" são tratados pelos mais jovens.

Para quem não sabe, "enta" é qualquer pessoa que já passou dos 39 anos de idade. Desse ponto em diante o sufixo "enta" fará parte da sua idade.

Quando avançamos além dessa fronteira etária, o mundo parece querer revogar automaticamente tudo que sabemos sobre tecnologia, serviços e até mesmo sobre a linguística, principalmente em seus aspectos semânticos e sociais. Eita! Divaguei de novo, foi mal.

O que acontece é que, de uma hora para outra, parece que desaprendemos a lidar com tecnologias. Nossos celulares são arrancados de nossas mãos por parentes e atendentes por acreditarem que somos incapazes ou lentos demais para lidar com a tecnologia atual.

Em outras situações pedem para digitarmos em (e até apontam) teclados virtuais que já estão diante de nós. Nos mostram em qual lugar da "maquininha" devemos aproximar nossos cartões (mesmo com o símbolo aparecendo na tela ou impresso no corpo da máquina) e demais "gentilezas" do mesmo naipe.

Há também o etarismo físico, mais comum nos homens: são passageiros cedendo lugar em transportes públicos, e pessoas fisicamente mais fracas que eu voluntariando-se para carregar bolsas e sacolas, quando eu as carregaria junto com as bolsas e as sacolas se fosse necessário. Mas esse é menos grave, pois tem a ver com a ignorância alheia sobre a força e a resistência física dos mais velhos.

Saiba que não sou contra assentos preferenciais nem acho errado o sentimento piedoso de simpatia para com os idosos. A subestimação que é o problema. As pessoas se dirigem a nós com uma irritante paciência disfarçada de gentileza. Falam conosco como se estivéssemos acabado de chegar à terra vindo do planeta "Velhurno" e não conhecêssemos as tecnologias nem como interagir com os terráqueos.

Existe uma força invisível tentando nos afastar da vida cotidiana, roubando páginas dos nossos papéis na sociedade, querendo nos convencer que agora existe um narrador contando a nossa história em terceira pessoa.

Nossas habilidades não estão cristalizadas no passado, estamos acompanhando a evolução do mundo e somos plenamente capazes de lidar com eles. Não existe essa ideia de que estranhamos as novas tecnologias.

E a pergunta é essa mesmo: "Qual é a bronca?" Essa era a pergunta que meu pai fazia em casa, e provavelmente no trabalho, quando algo precisava ser resolvido por ele. Carrega a ideia de resolutividade. Quem usa essa expressão veio para resolver, não para tentar. Típico da minha geração.

sábado, 6 de maio de 2023

EINSTEIN E O TIKTOK

 Einstein é um dos cientistas mais relevantes da história. Existe a física antes e depois de Einstein. Aqui e e ali nos deparamos com mitos e verdades acerca dos seus hábitos. Já no quesito "frase célebre", há uma infinidade delas creditadas a ele, sendo que a maioria é apenas fruto de uma lembrança precária.

E tudo acontece de forma semelhante:

Em busca de curtidas e engajamento, uma pessoa deseja fazer uma postagem relevante na sua rede social mas só lembra da frase. O autor? Desconhece ou caiu no esquecimento. Quando não é acometida da preguiça de "dar um Google", acaba frustrada por descobrir que o autor da frase solta em sua memória é uma pessoa de pouca relevância histórica ou uma pessoa cuja biografia não é das melhores: um Mussolini, um Hitler, um um Luís Inácio ou Ted Bundy.

Apostando na preguiça dos seus seguidores e daqueles que verão sua postagem, credita a Albert Einstein uma frase que ele nunca disse. Esse é o relato mais comum de como surgem essas postagens.

Isso remete à sobriedade do escritório de Einstein. O que ele precisava era de uma cadeira, uma mesa ou escrivaninha, papéis, lápis e uma grande cesta de lixo para colocar todos os seus erros - revelou um jornalista do Saturday Evening Post em 1929. Nem mesmo livros eram necessários. Sua mente era ao mesmo tempo biblioteca e laboratório, tamanha a capacidade de concentração.

Não vou negar que pensei na seguinte bobagem: "O que aconteceria se o Einstein fosse contemporâneo das redes sociais?" Apesar de ser uma bobagem infantil, foi o ponto de partida para uma reflexão menos tola.

Sabemos que uma mente cansada pode encontrar nas redes sociais o ambiente perfeito para aliviar tensões com conteúdos divertidos e curiosos.

Mas há um lado nocivo.

Assim que as redes sociais desenvolveram mecanismos para conectar pessoas com interesses semelhantes, as empresas perceberam rapidamente que poderiam usar essa tecnologia para atingir com precisão o seu público consumidor.

A busca pela nossa atenção é algo tão poderosamente lucrativo que os avanços tecnológicos atuais já fazem parte do campo de estudo de neurocientistas, sociólogos, psiquiatras e de quem mais puder colaborar para tornar as redes sociais uma ferramenta eficaz em abduzi-lo da sua "vida analógica".

Tudo bem, você poderia me dizer que os cientistas que estão diante das pesquisas científicas mais relevantes não estão nem aí para as redes sociais. Eu até concordaria com você se essa abdução se restringisse às redes sociais. Ferramentas de comunicação análogas ao WhatsApp e softwares de videoconferência como o Microsoft Teams cumprem o papel das redes sociais em roubar a atenção das pessoas, embora de forma menos intensa.

E assim nascem três perguntas sem resposta:

1. Quantas descobertas científicas já foram perdidas porque o cientista estava distraído demais com essas tecnologias abdutoras da realidade?

2. O saldo entre as vantagens que a tecnologia proporciona e o tempo consumido em distrações proporcionadas é positivo em favor do desenvolvimento da ciência?

3. Será que existe um Einstein contemporâneo distraído com as dancinhas do TikTok em algum lugar do mundo?

Disciplinar o tempo de exposição às redes sociais pode ser um exercício de autocontrole bastante interessante. Sentar em um parque ou à beira do mar e admirar um pôr do sol sem fazer uma selfie é um forte sinal de que você ainda está no controle.

domingo, 19 de fevereiro de 2023

TUDO PASSOU

E então, tudo passou!

E eu que achei que viveríamos ainda longos meses, ou talvez anos, recuperando as lacunas de desumanidade e as consequências da indecente falta de empatia do ex-presidente. Achei que passaríamos um ano ou dois desfazendo malfeitos e reintegrando aos seus postos de trabalho pessoas caridosas e sensatas que foram afastadas dos seus quase abnegados cargos em órgãos públicos. Que demoraríamos um bom tempo para retomar a economia pujante interrompida pela desastrosa administração direitista.

Achei que ainda demoraríamos para subjugar a nociva, preconceituosa e elitista tradicional família brasileira que andava solta pelas ruas dando pontapés em minorias e cuspindo na cara dos menos favorecidos. Assim como imaginava que demoraríamos longos anos para recuperar a nossa credibilidade internacional, tão achincalhada pelos golpistas. Indesejáveis inquilinos do palácio que destruíram a mobília, o prestígio e a liturgia do cargo.

Qual nada!

Essa guinada completa nos rumos do país em direção ao desenvolvimento e a retomada do crescimento econômico fez desaparecer magicamente todos os desastres administrativos dos últimos quatro anos. Não é mais necessário vigiar os gastos públicos ou a inflação. Os atos antidemocráticos sumiram, o fascismo dos poderosos e devastação da Amazônia desapareceram como uma cortina de fumaça.

Agora sim, estamos novamente no rumo certo do crescimento econômico, do lado certo da história e construindo a narrativa correta para que a nefasta direita nunca mais ouse tomar para si o que a história já mostrou ser desígnio e predestinação dos progressistas.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

INCREDULIDADE E TRAIÇÃO

A primeira vez que o Luís Inácio da Silva concorreu à presidência foi em 1989, perdendo no segundo turno para Fernando Collor de Mello. Depois viria a perder mais duas, em 1994 e em 1998, ambas para Fernando Henrique Cardoso.

Em 1989 e ainda por muitos anos, o lema "política, futebol e religião não se discute" se manteria como consenso nacional. Ninguém concordava em nada sobre nenhum político. A falta de informação confiável era tanta, que passamos a acreditar que um político honesto era tão real quanto um unicórnio.

De um modo geral, o brasileiro médio estava pouco se lixando para o que acontecia nos bastidores da política. Como todos roubam, era melhor esquecer o assunto e tentar viver com que estava ao alcance dos olhos e do bolso.

A única alternativa que ainda não havia sido testada era um presidente de esquerda. Havia um modesto grupo com certo engajamento político, num tempo onde as informações dependiam de um certo esforço para serem encontradas. Não é como hoje, que tudo está ao alcance de meia dúzia de toques no celular. Para um povo que havia condenado a política ao ostracismo, esse magro conhecimento político desse modesto grupo já era muito. Eram vistos como politizados e com uma apurada consciência social.

Eram facilmente reconhecidos nas ruas. Boinas vermelhas, camisetas do Che Guevara e broches com uma estrela vermelha com a 16ª e 20ª letra do alfabeto inscritas eram o enxoval típico desse grupo. Ouvir aquelas pessoas falando era algo curioso. Apesar da verborragia política impressionar, algum conhecimento de história era suficiente para perceber que o discurso era meio embolorado, pois falava de luta de classes, da burguesia versus o proletariado, falava da ditadura, de repressão policial e outras coisas do passado. Mas era inegável que havia um brilho nos olhos daquelas pessoas. E para um povo tão carente de informação sobre política, era fácil acreditar que aquele modesto grupo talvez pudesse conhecer o caminho que nos livraria definitivamente do terceiro mundismo, da pecha de "país do futuro", do futuro que nunca chega.

Independente daquelas ideias fazerem sentido ou não, havia uma alternativa ainda não testada. Um homem do povo no poder? Interessante! Todos os quatro presidentes após João Batista Figueiredo, o último dos militares, não poderiam ser chamados de homens do povo. Um advogado, um ex-governador, um engenheiro militar e um ex-ministro da fazenda não encaixavam na moldura do típico trabalhador brasileiro, esses homens não representavam o povo.

Quando o ex-metalúrgico-sindicalista foi eleito, o sentimento era de que havíamos escolhido a pessoa certa para a cadeira de Presidente da República. Finalmente havia um homem do povo lá. Até então, ninguém havia achado estranho que o sindicalista radical que tantos queriam ver como presidente, teve que ser repaginado para a versão "paz e amor" para que a maioria dos eleitores quisessem votar nele.

Treze anos e duzentos e quarenta e três dias depois. Os grandes avanços na informática e nas telecomunicações revelaram aos olhos do mundo quem aquele sindicalista radical havia se tornado. Era natural que o primeiro sentimento de quem votou, torceu, fez campanha, distribuiu panfletos, balançou bandeiras e organizou passeatas fosse de negação. É fácil entender que o golpe foi duro para aqueles que o viam como a esperança de construir um novo país.

O avanço nas telecomunicações também atingiu as tevês e os jornais. Provavelmente todas aquelas acusações e condenações não passavam de um plano arquitetado pelos antigos donos do poder para retirar o povo do poder. Era difícil acreditar que o mote de campanha "o amor venceu o medo" havia se transformado na maior sequência de crimes contra o patrimônio público da história mundial.

Tirando aqueles que serão beneficiados direta ou indiretamente com a sua reeleição, o que sobra são brasileiros incrédulos, incapazes de superar o fato de que o amor não venceu o medo. Era o medo disfarçado de esperança. Há de se considerar que foi um duro golpe, no coração, eu diria, daqueles que o viam como um verdadeiro líder. O homem que colocaria, de uma vez por todas, o país nos trilhos da ordem e do verdadeiro progresso.

Decepcionados, com a criminalidade em alta e a economia em baixa, elegemos mais um radical em 2018. Dessa vez o escolhemos cru mesmo, sem ser repaginado, sem maquiagem, sem falsos sorrisos e sem marqueteiro. Isso só foi possível porque passamos a viver em um mundo onde nada é feito às escondidas na presença de um celular. Qualquer um de nós hoje é uma testemunha ocular mundial do que acontece. Filmamos desde assaltos à mão armada até cuecas cheias de dinheiro em 4K. E se quisermos, dá até para transmitir ao vivo.

Portanto não vejo o que sobrou da esquerda como uma massa homogênea de gente mau-caráter. Há sim, os que querem retomar as suas atividades "cabulosas", mas estes são poucos, embora poderosos. O restante é um povo magoado, traído, incrédulo e triste. Que ainda nutre a esperança de que alguém vai chegar com uma notícia bombástica ou uma explicação mirabolante para tudo que vimos nestes treze anos e duzentos e poucos dias de roubalheira e corrupção. A realidade ainda é muito dura para os apaixonados corações vermelhos.

Finalmente, esses quatro anos que esquerda ficará no poder poderá nos levar a dois caminhos. O primeiro e menos provável será a tentativa de limpar o próprio nome, de tentar convencer o povo de que tudo não passou de um mal-entendido, de um plano orquestrado pela oposição para manchar a imagem da alma mais honesta do Brasil. A segunda e mais provável, é que o grande acordo com o STF e com tudo, será retomado e as falhas que levaram ao desmonte do tal grande acordo sejam corrigidas.

Seja qual for o caminho que tomarem, passaremos quatro anos vivendo em um mundo irreal, onde a verdade é uma linda embalagem com uma podre mentira dentro.

domingo, 24 de julho de 2022

ARTE X ENTRETENIMENTO

Segundo o dicionário Oxford, arte é habilidade ou disposição dirigida para a execução de uma finalidade prática ou teórica, realizada de forma consciente, controlada e racional. Ou o conjunto de meios e procedimentos através dos quais é possível a obtenção de finalidades práticas ou a produção de objetos; técnica.

Partindo simplesmente das duas definições do dicionário, podemos observar que, na primeira, a arte é realizada de forma consciente, e na segunda, que a arte envolve técnica.

Sendo assim, podemos entender que arte demanda trabalho, concentração, prática, técnica e estudo. O dom tem mais relação com uma responsabilidade a ser assumida e aprimorada do que com um privilégio a ser usufruído.

Uma pessoa com aptidão para o canto, por exemplo, precisa treinar, praticar e estudar para aprimorar o seu canto. É justamente por ter uma boa voz que essa pessoa precisa de todo esse investimento. Quem não nasceu com uma voz tão boa, vai aprender as mesmas técnicas, vai estudar e praticar, mas não alcançará o mesmo virtuosismo.

Um exemplo famoso deste último caso é o Chico Buarque, muito mais talentoso compositor do que intérprete de suas próprias canções. Ciente das limitações da sua voz, desenvolveu técnicas a fim de compensar seu pouco tônus vocal. Ao contrário de Elis Regina, uma voz potente e afinada, apesar do cigarro, que não era compositora, mas fazia interpretações magistrais das canções que lhes eram confiadas.

Uma outra característica da arte é o embevecimento, ninguém entra na capela sistina e fica conversando sobre o tempo e o preço da gasolina. A não ser que tenha entrado lá por acaso e não olhou para cima ou intencionalmente não pretendia prestar atenção nos afrescos do teto.

É seguindo essa lógica que podemos entender porque as letras do Chico Buarque e as interpretações da Elis Regina não são as primeiras opções de música em um bar. A não ser que seja um bar temático, as músicas de artistas como esses nos levam a ficar contemplativos. E quem está contemplativo não bebe e nem come.

Para o dono de bar, a melhor música é aquela que faz o cliente consumir. Ele não está interessado em poesia, rima ou métrica, o propósito do bar é vender. De olho nesse mercado nada exigente, pessoas muito astutas criaram um tipo de entretenimento sonoro que nada tem a ver com arte.

Apesar de estarmos falando da música, esse raciocínio também serve para a literatura, as artes plásticas ou o teatro.

Para saber se estamos diante de arte ou entretenimento, basta observar o seguinte: quando não há arte é preciso criar outros estímulos para prender a atenção do espectador. Na literatura, são os livros que ganham notoriedade após virarem filmes. Nas artes plásticas são as pinturas que ganham notoriedade após serem compradas por alguma celebridade. E no teatro são as peças teatrais que, por exemplo, abusam do nu e do palavrão sem contexto para despertar a curiosidade em vez das emoções da plateia.

Na música não é diferente. Os shows de entretenimento sonoro consomem um aparato de efeitos visuais muito maior do que quando há um artista se apresentando. Sob o pretexto de "criar uma atmosfera" ou uma "experiência sensorial", desvia-se a atenção do público para efeitos visuais como lasers, telões ou pirotecnia.

Mesmo em shows de rock, onde os efeitos visuais são comuns, quando há arte, os efeitos apontam para os artistas ou para a música que está sendo executada, como as explosões na hora do refrão, ou na parte mais contundente da letra, por exemplo.

Quando se trata de entretenimento sonoro, os efeitos visuais visam demonstrar grandeza e sucesso financeiro. O objetivo é convencer a audiência de que, se há dinheiro para uma produção caríssima, é porque são bem sucedidos, e se são bem sucedidos devem ser bons mesmo. É sob essa estratégia que temos hoje shows de entretenimento sonoro com produções caríssimas sem nenhum compromisso com a arte.

É por isso que o ritmo de shows é frenético: ao mesmo tempo precisa bancar uma produção caríssima, por não ser arte, o auge se torna um lugar efêmero e escorregadio.

E é por isso que os bares preferem o entretenimento sonoro. Ninguém está extasiado com a letra, nem admirado com a bela voz do cantor ou com o virtuosismo dos músicos. Até porque não há letra, voz ou virtuosismo a ser apreciado. Como a banda não está presente com sua produção milionária, é só o áudio, sobram apenas as tristes histórias de traição ou bebedeira contada em rimas pobres e em altíssimo volume.

terça-feira, 19 de julho de 2022

NEOLOGISMO SEMÂNTICO

A língua portuguesa é a nossa ferramenta de representação dos nossos pensamentos, ações e interações com os outros falantes da nosso idioma. Sua transformação está condicionada à nossa evolução social. O vocábulo "você", evolução sociolinguística da expressão vossa mercê, é um bom exemplo dessa transformação.

Outros exemplos de neologismo semântico é quando seu chefe fica uma "arara" sem se transformar em uma ave, ou quando seu vizinho faz um "gato", mas não gera um felino sequer.

A dicionarização desses neologismos semânticos não aconteceu da noite para o dia, pelo contrário, suas raízes históricas são profundas, algumas perdidas para sempre por falta de registro ou porque sua história é puramente oral.

Outras, conhecidas, de vez em quando, ganham as redes sociais com sua natureza semântica modificada, geralmente apontando para temas sensíveis, objetivando engajamento, publicidade, interação, visualizações, etc. Não há compromisso em informar apenas em dar às plataformas, tão desinformadas quantos os que comentam, a falsa impressão que aquela discussão interminável é edificante ou produtiva.

Uma das mais famosas é a expressão "nas coxas". Dizer que algo foi feito "nas coxas" nunca teve qualquer conotação racista. Imagine quão curta seria a carreira de um construtor no período em que a escravatura era legalizada, ao tentar construir um telhado com telhas das mais variadas medidas de comprimento, largura e concavidade. A expressão realmente significa algo feito sem capricho, mas somente porque está apoiado nas coxas, sem firmeza.

A dicionarização de palavras ou expressões com significados diferentes do original está condicionada à sua popularização, uma evolução natural sem motivação política ou finalidade remediativa.

A língua portuguesa não é o foro mais inteligente para reparar questões sociais, culturais, étnicas ou de gênero. Veja o caso da expressão fazer um "gato" citada no segundo parágrafo. Especula-se que pode ter relação com gatuno, com o próprio gato como um animal capaz de furtar comida ou com a expressão "o pulo-do-gato", a menos provável.

E ainda há a explicação dos moradores da cidade portuguesa de Coimbra. De acordo com os mais antigos, a expressão tipicamente brasileira "fazer um gato" pode ter ligação com o trabalho de remendar um vaso de cerâmica quebrado. Os ceramistas que fazem esses remendos imperceptíveis são chamados de gatos. E assim como um vaso remendado retoma a aparência de estar intacto, a ligação clandestina de energia elétrica ou de internet aparenta ser legítima.

domingo, 17 de julho de 2022

TUDO ESTÁ MUITO MODERNO

  Meu celular me chama de Beto. Pedi a ele, por meio de mecanismos sofisticadíssimos, que passasse a me tratar com intimidade, já que vai para quase todos os lugares que eu vou (quase? enquanto escrevo, procuro me lembrar para onde não o levo e nenhum lugar me vem à mente). 

Apesar de ter nascido em 1970, gosto muito da tecnologia atual. Acho o telefone celular, por exemplo, o máximo! Nenhum filme de ficção da minha época de ávido consumidor de enlatados americanos, foi tão ousado em idealizar um aparelho de comunicação pessoal quanto a própria realidade. Precisa achar um endereço? Pagar suas contas? Comprar aquela novidade que você não está precisando? Pedir comida? Pedir carona?

Da última vez que contei, dava para pagar até 8 empresas para fazer suas compras. de supermercado pra você e deixar na sua casa. Esse, então, é um ótimo exemplo de como os tempos estão mudados. Cresci entendendo que fazer supermercado é coisa de adulto, um ato de extrema responsabilidade cuja competência era restrita ao pais. Até um irmão mais velho quando ia ao supermercado, era para comprar alguma coisa que faltou ou algum item extra.

E era no caixa, na hora de levar as compras para casa, onde podíamos testemunhar a importância solene daquele evento. O semblante fechado, tenso, com um certo olhar de dúvida sobre certos itens que eram registrados e cujo preço se somava ao total a pagar. Era a conta feita "nos olhos", um cálculo sem números, um misto de vivência e cautela (ou talvez até receio de sair muito caro), dando ordem para retirar, aqui e ali, certos itens da esteira rolante. E via de regra eram as guloseimas que "dançavam". Num rápido movimento, o biscoito, o chocolate, a uva passa ou o doce eram discretamente colocados na "cesta dos arrependimentos".

Quando o caixa passava o último item, o pai ou a mãe até assentia com a cabeça, como se confirmasse para si mesmo que o valor era aquele. O semblante de "cálculo sem número" só iria se desfazer no estacionamento. A volta para casa era no clima de dever cumprido, estamos abastecidos de provisões até o próximo mês.

Hoje está tudo moderno. A maioria das redes de supermercados têm seu próprio aplicativo que entrega as compras em casa, tem aplicativo de carona que entrega as compras em casa, tem aplicativo, inclusive, que só faz isso: faz suas compras e manda deixar na sua casa. Você escolhe os produtos, vai colocando em um carrinho de compras virtual, faz o pagamento on-line e espera, até que alguém te chame à porta e te entregue as suas compras.

Quando me pus a refletir sobre a modernidade dos tempos tomando como exemplo as compras no supermercado, alguns substantivos me vieram à mente: praticidade, eficiência, comodidade e, obviamente, modernidade. Mas um deles me chamou mais a atenção: banalidade.

DE PAPINHO COM O HORIZONTE

 - Agora não tem mais jeito. O despertador do telefone tocou a segunda soneca de 5 minutos, tenho que levantar ou então vou me atrasar.

A rotina do Valdir é sempre muito apertada. Depois que o despertador do telefone toca, tudo é cronometrado: banho, roupa, café e rua. Não dá pra ficar na janela de papinho com o horizonte tomando café na caneca como nos comerciais de margarina.

O café vai no copo americano mesmo. Preto e por cima de 10 gotas de adoçante pra não sujar nem a colher de chá, acompanhado do que tiver em casa: pão, bolacha, bolo ou nada. Não dá tempo de fazer beiju, cuscuz, panqueca nem ovo mexido, as horas de sono são preciosas demais para serem trocadas por um desjejum decente. Isso é coisa de fim de semana.

No sábado e no domingo, aí sim, dá tempo, só não dá disposição. A padaria é meio longe, mas a preguiça do fazer-sujar-comer-lavar, miraculosamente encurta essa distância e o café é tomado lá mesmo. Sendo assim, raramente o Valdir dispõe dos ingredientes para um desjejum, digamos, doméstico.

Depois dos seus dois compromissos: com o "tigelão" e com o chuveiro, sai do banheiro correndo para o quarto. Abre o guarda-roupas e tira: cueca, calça, camisa polo e um par de meias. E mais uma vez não há tempo a perder. As cuecas são todas boxes, pretas e iguais. As meias idem, - só não são boxes. A calça jeans e a camisa polo, ambas com o logotipo da firma, anulam qualquer indecisão sobre o que vestir.

Quando a porta do apartamento bate às suas costas, ele se lembra da vantagem da maçaneta cega. Puxou a porta, pode ir embora. Já pensou ter que sair com a chave na mão, fechar a porta, trancar a porta e só então correr para o ponto de ônibus tentando enfiar um molho de chave no bolso ou na mochila? Definitivamente a maçaneta cega é amiga do relógio.

Chegando na portaria do prédio, Valdir notou que o portão estava aberto, estavam lavando a lixeira. O síndico do prédio era um senhor já aposentado, muito caprichoso com a limpeza e a organização do condomínio. Sentiu um leve orgulho de morar em um condomínio tão organizado e limpo.

Faltando cinco passos para chegar no ponto, lá vem o ônibus. Era muito comum alguma coisa dar errado na rotina do Valdir: derramei café na roupa, esqueci de levar a toalha para o banho, o assunto com tigelão demorou mais que o "previsto", vesti a camisa ao contrário, achei um pé do sapato mas o outro se escondeu, eram coisas comuns de acontecer.

Mas havia algo de diferente no ar! Tudo estava dando certo e essa sincronia era o prenúncio de um bom dia de trabalho. Valdir entrou no ônibus com a empolgação e a energia típicas dos que batalham de sol a sol pelo pão nosso de cada dia. Um verdadeiro trabalhador brasileiro.

Quando viu que alguns assentos estavam vagos e um deles na janela, perguntou-se o que havia feito de tão bom para merecer um começo de dia tão perfeito. Sua alegria era visível aos outros poucos passageiros. Valdir sentou-se e sacou seu fone de ouvido e sintonizou sua estação de rádio preferida. Era sua estratégia de ouvir boa música sem gastar seu tímido pacote de dados. E assim seguiu Valdir, balançando a cabeça ao som da programação musical do dia.

Desceu do ônibus e começou sua curta caminhada de uma quadra até os portões da empresa. Enquanto assoviava a última música ouvida na estação, guardou os fones de ouvido e sacou seu crachá. Ao levantar a cabeça, já com o crachá pendurado ao pescoço, o que ele viu gelou seu coração por dentro. Os portões da empresa estavam fechados.

Lembrou-se imediatamente dos noventa minutos de ônibus - o tempo de uma partida de futebol. Apesar de já ter entendido o que estava acontecendo, ainda havia dentro dele um fio de esperança de estar errado. Sacou o telefone e olhou, incrédulo, para a tela, onde jaziam três letras, a fonte de toda sua repentina angústia: SAB.

Depois de ficar parado o tempo necessário para trazer sua mente de volta à realidade, começou a caminhar de volta para o ponto do ônibus onde acabara de descer. No caminho ia relembrando os sempre que deixara passar: de segunda a sexta o ônibus sempre demora, e quando passa é sempre cheio. A lavagem da lixeira é semanal e sempre acontece no mesmo dia da semana. E aquela estação de rádio que embalou sua nula viagem, só toca músicas em um único dia da semana: sábado.

Puto pelas 3 horas perdidas na vã viagem, mas ao mesmo tempo feliz pela chegada do fim de semana, passou pela portaria contrariado. Estavam abertas a lixeira lavada e o sorriso de deboche do porteiro. Entrou em casa, fez outro café, pegou do armário sua caneca preferida, encheu-a e foi para a janela ficar de papinho com o horizonte, enquanto soprava, da caneca de café, o calor, e da sua cabeça quente, a lerdeza.

sábado, 16 de julho de 2022

UMA DÚVIDA CONSUMISTA

Um dia desses, sentado em frente à TV no final do dia, dividia a minha atenção entre o celular e algumas cenas de um filme que eu já havia assistido. Era um desses besteiróis americanos onde eles fazem piadas sobre tudo, até com cenas de outros filmes famosos.

Deixar a televisão ligada enquanto mexemos no celular é algo muito comum hoje em dia. Nos habituamos com a "hiperconectividade" ou, simplesmente, padecemos disso sem perceber os prejuízos que nos causam. Só que este não é o foco deste texto.

Em uma das vezes que eu levantei a vista para ver o que estava acontecendo, havia um grupo de homens e mulheres festejando à beira da piscina. Eles com calções de banho quase no joelho e elas com aqueles biquínis enormes, praticamente impossíveis de ver nas praias e piscinas brasileiras.

A intenção da cena era passar sensualidade, mas para nós, brasileiros, muito menos puritanos, apenas aceitamos que é uma cena sensual. Aquele tipo de cena nunca nos convenceu. E detalhe, não era um filme antigo, portanto os biquínis e calções não eram de uma época mais recatada.

Foi quando me lembrei que acreditamos, durante anos, que carros explodem, que explosões podem ser ouvidas no espaço, que os vikings usavam um elmo com chifres, que bombas nucleares podem resolver o problema de um asteroide em rota de colisão com a terra, que Pocahontas se apaixona pelo John Smith e a mais recente: que a banda Queen participou do Live Aid com o Freddie Mercury já ciente de que estava doente.

Carros só explodem com explosivos, explosões no vácuo do espaço não podem ser ouvidas, foi ideia do figurinista das óperas de Wagner colocar chifres nos elmos dos vikings (que nem usavam elmo), bombas nucleares só agravariam a situação, Pocahontas, que na verdade se chamava Matoaka, não se apaixonou pelo explorador inglês e Freddie Mercury só descobriu que estava com uma doença fatal, até então desconhecida, em 1987.

Esses exageros e alterações dos fatos, próprios da indústria do cinema, não são coisas ruins, o objetivo é dar mais dramaticidade à trama. Quem não sabia que o Freddie Mercury participou do Live Aid dois anos antes de saber do diagnóstico fatal, achou a cena muito mais emocionante.

Há muito tempo que o entretenimento audiovisual, seja cinema, seja televisão, seja internet, é conhecido como uma ótima ferramenta de venda. Vende produtos, costumes e filosofias de vida. Redefine o que é felicidade, saúde, sucesso, amizade e prazer, por exemplo.

Mas diante daquela cena, daqueles biquínis mostrados como sensuais em "mais um besteirol americano", fiquei pensando: porque não vejo aqueles biquínis nas praias? Porque não compramos a ideia de que aquelas mulheres estavam em trajes provocantes?

Deixo a cargo dos mais sabidos dar resposta a essa pergunta.

segunda-feira, 7 de março de 2022

O QUE É A BELEZA?

A beleza é algo quase imperceptível aos olhos naturais, uma sensação de pertencimento, uma contemplação que vai além do olhar que chega ao sentir, uma maneira de ver as coisas e se sentir agraciado pelo que vê. A beleza, em sua definição mais ampla é a capacidade de perceber algo que dá sentido a existência. É como se a beleza gritasse aos nossos olhos diariamente, e apenas por um raro momento conseguíssemos ver a beleza em toda a sua plenitude. Nesse momento, de absoluta contemplação, nos damos conta da sua grandeza e do quanto precisamos daquela beleza para não considerarmos cabível, o vazio existencial dos pensadores que não adicionaram a beleza à sua definição de ser humano.

A miséria é a vida desprovida da contemplação da beleza. Dessa forma, o conceito moderno de realização pessoal é aquele em que o homem sai da “roda de hamster” para poder viver diariamente contemplando a beleza. Todas as propagandas sobre riqueza e sucesso financeiro não mostram um homem ao lado do dinheiro que ganhou na “roda de hamster”. Sempre mostra o homem em estado de contemplação da beleza, financiado com o dinheiro que ganhou na “roda de hamster”, mostrando que não há busca da riqueza pela riqueza, mas a busca da riqueza para proporcionar momentos de contemplação da beleza.

Mas a beleza é muito mais do que isso, a beleza é a pedagogia da bondade. E nesse tempo tumultuado, onde a “roda de hamster” ficou maior e mais pesada e onde não há rodas suficientes para todos os hamsters, é preciso manter a sua roda girando loucamente, para que você não seja substituído por outro hamster mais disposto e mais capaz de girá-la mais rapidamente que você.

Nesse ambiente hostil e carente de instantes mínimos de beleza, sem tempo ou dinheiro para comprar um momento de contemplação da beleza, o homem criou belezas para si. Ao tornar absoluto o conceito relativo de que “a beleza está nos olhos de quem vê”, permitimos que interesses humanos, dos mais diversos, tomassem o lugar da beleza. Nessa etapa vaidosa onde o ser humano desconstruiu a definição de beleza para qualquer coisa que ele queira dizer, passamos acreditar que há beleza em qualquer expressão humana. Ou pior, passamos a acreditar que a expressão humana é a própria beleza quando não é. Então passamos a acreditar que vemos beleza no mictório de Marcel Duchamp sob a alegação de que ele trouxe uma ruptura. Mas uma ruptura do quê, exatamente?

Assim como uma piada, que depois de contada perde a graça, assim é essa falsa beleza que criamos para nós mesmos. Não há mais nada para ver ou aprender diante de algo desprovido da verdadeira beleza. Podemos passar horas diante de uma bela paisagem contemplando a sua beleza, mas temos uma clara vontade de ir embora, por exemplo, de uma exposição de arte abstrata. Chegamos na exposição, curiosos em ver aquilo que outra pessoa criou e assim como a fábula “A Nova roupa do Rei”, olhamos para aquela produção humana com extrema boa-vontade, tentando encontrar dentro de nós uma sensibilidade que não existe. E então fingimos admirar esculturas e pinturas grotescas e sem qualquer estética, com vergonha de sermos vistos como o menino que grita que o rei está nu.

E no meio de toda essa loucura, passamos acreditar que existe um padrão e um lugar para a beleza, quando na verdade nascemos na maior obra de arte já criada, o planeta terra. E nós somos parte fundamental dessa beleza, somos a assinatura do artista, sua identidade visual ao nível genético.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

ISSO O CINEMA NÃO MOSTRA

A experiência de ir ano cinema consiste, basicamente, em entrar num ambiente escuro e temperatura adequada para que nossa atenção fique totalmente direcionada à tela onde será projetado o filme. Esse é a definição mais básica que consigo pensar sobre a experiência de ir ao cinema.

Como o ambiente precisa ser o mais imersivo possível, nada poderá tirar a atenção de quem está diante da tela. Assim, o ambiente é pensado com esse objetivo, para que a possibilidade de nos distrairmos com algo durante a exibição do filme seja o mais próximo do zero.

Portanto as duas palavras de ordem do ambiente são: conforto e foco.

Solucionadas as questões relativas a conforto e foco, celulares são desligados, colocados em modo avião ou simplesmente silenciados. 

O filme já vai começar.

Depois que todas as luzes são apagadas, a única luz visível é a projetada pela tela do cinema. Para entendermos o poder que a luz exerce sobre o homem, basta lembrarmos o quanto pessoas se aglomeram (ou se aglomeravam) ao redor do mundo para presenciar uma queima de fogos e do fascínio que cidades luminosas como Paris e Las Vegas exercem sobre nativos e turistas.

Do outro lado da tela, um exército de pessoas extremamente talentosas em suas funções, testadas diuturnamente e a exaustão acerca de suas capacidades, reúnem-se sob um orçamento bilionário com uma expectativa de retorno igualmente astronômica.

Se precisássemos convencer alguém de algo, essa seria a estratégia ideal. Aliás, não consigo pensar num ambiente mais propício para esta tarefa do que um cenário como esse.

É daí que surge a minha dúvida:

Desde que os irmãos Lumière inventaram o cinematógrafo, quantas vezes as pessoas já foram convencidas em massa de uma ideia? As estreias mundiais de filmes muito aguardados e sobre os quais já se fala há anos, leva uma quantidade expressiva de pessoas a ouvir e ver aquela estória ser contada num único dia. E o filme ficará em cartaz por dias e até semanas.

Se uma ideia qualquer precisa ser transmitida de forma palatável, nada melhor do que a belíssima embalagem de um filme tão aguardado por tantas pessoas.

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

A MOENDA DOS SONHOS

De férias em São Luís, minha cidade natal, ficamos hospedados no mesmo hotel onde estavam muitos garotos entre 12 e 17 anos, jogadores mirins de futebol em um clube pequeno, talvez uma escolinha, cuja intenção é prepará-los para, quem sabe, tornarem-se astros do futebol brasileiro.

Desde que chegamos, temos tomado nosso café da manhã fora do hotel. Hoje foi a primeira vez que escolhemos tomar café aqui mesmo e foi justamente quando percebi algo preocupante em relação a formação dos pretensos jogadores de futebol.

Alguns estavam andando pelo salão do café da manhã falando alto com os coleguinhas, todos com as camisas do clube na maior animação. Um deles, inclusive, estava se divertindo com um aplicativo de jogo de futebol no celular. Eu, que não estava numa mesa próxima, pude identificar rapidamente do que se tratava.

Esse cenário me lembrou, de imediato, a algazarra que eu fazia no fundo dos ônibus que eu andava junto com os colegas nos tempos de escola, uma lembrança boa de um tempo de inocência e empolgação juvenil.

Torço para que esses garotos brinquem e aproveitem bastante esse tempo até que passe para a maioria. Espero que nenhum deles esteja vivendo o sonho do pai, de ter sido um jogador de futebol de sucesso ou de ser pai de um jogador de futebol de sucesso. A versão masculina e brasileira daquelas mães de miss mirim norte-americanas que colocam suas filhas, cujas idades ainda cabem nas mãos, desfilando profissionalmente em passarelas para, no final, serem julgadas por traços de beleza ainda longe de estarem prontos.

Espero, sinceramente, que todos eles brinquem bastante durante esse tempo e que seus pais tenham o discernimento de deixá-los escolher o que vão fazer de suas vidas sem influenciá-los. Que os futuros professores, médicos, vendedores, engenheiros, caminhoneiros, psicólogos, agricultores, mecânicos e demais futuros profissionais escalados nesse time, não abdiquem dos seus sonhos para viver o sonho dos seus pais.

Os casos de sucesso na profissão de jogador de futebol estão muito mais relacionados a dedicação e sacrifícios pessoais do que ser fanático por um clube ou sonhar em viver uma vida de rei às custas do filho famoso.

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

EM QUE SENTIDO É RELEVANTE PARA AS ORGANIZAÇÕES PROMOVER MAIOR ATRAÇÃO E RETENÇÃO DE TALENTOS E GANHO REPUTACIONAL?

Promover uma maior atração e retenção de talentos das organizações é algo fundamental para a construção de uma imagem positiva perante clientes, fornecedores e a sociedade.

O esforço desprendido na substituição de um funcionário estratégico pode comprometer o desempenho da empresa e envolve uma busca por um padrão que, além de ser difícil de encontrar, pode não ser satisfeito tão rapidamente quanto necessário ou esperado.

Observam-se três aspectos impactantes no processo de substituição de um colaborador. O colaboradores estratégicos normalmente recebem treinamentos específicos e detêm conhecimentos tácitos desenvolvidos a partir da experiência adquirida.

A curva de aprendizagem de outro colaborador, dependendo do grau de complexidade da atividade a ser realizada a das competências e habilidades do novo colaborador, pode demorar a se completar.

Construir uma cultura organizacional sólida, estruturada em valores importantes como ética, responsabilidade socioambiental e diversidade, por exemplo, uma missão bem definida e uma visão clara do seu papel na sociedade fará com que ao processo seletivo deixe de exercer o papel de substituir colaboradores e passa a ter a tarefa de construir um organismo corporativo baseado em parâmetros bem definidos.

Enfim, o ganho reputacional está ligado não só a divulgação para o público dos valores basilares os quais a empresa definiu, como também, a construção de uma identidade corporativa.

Sendo assim, essa imagem de solidez e confiança é construída de dentro para fora, impactando não apenas os colaboradores mas os clientes, os fornecedores e a comunidade em que a empresa está inserida.

terça-feira, 21 de setembro de 2021

A IMPORTÂNCIA DA PRESENÇA DE NEGROS EM CARGOS DE LIDERANÇA NAS ORGANIZAÇÕES

Líderes negros em cargos de liderança é de suma importância para o desenvolvimento do país de do mundo. Em pleno século XXI, não faz o menor sentido considerar a etnia como critério de um processo seletivo, seja qual for a justificativa.

Peter Schutz, empreendedor alemão que presidiu a Porsche nos anos 80, afirmava o seguinte: "contrate o caráter, treine as habilidades". Isso nos dá uma visão do quão  o racismo é retrógrado e improdutivo. Estamos falando de um pensamento dos anos 80 que prioriza o caráter até mesmo acima de critérios técnicos.

A representatividade seria o benefício mais evidente da contratação de líderes negros nas empresas. Obviamente não poderia ser um cargo de supervisão, ou coordenação, mas um cargo executivo, do contrário serviria apenas para dar uma satisfação tímida à opinião pública.

Qualquer jovem negro no início da carreira profissional gostaria de identificar-se com um dos executivos da empresa onde trabalha a empresa estaria mostrando ao jovem profissional que a etnia não é critério restritivo para a contratação ou promoção.

É de grande importância que as empresas percebam esta medida como algo necessário, uma nova e correta maneira de lidar com algo tão retrógrado quanto o racismo. Mesmo que se considere os aspectos controversos da pauta racial no Brasil, colocar um negro em um cargo de liderança pode catapultar a empresa para além da discussão do tema e fazer dela um exemplo a ser seguido.

Com a devida capacidade técnica aferida, sob olhares escrutinadores, capazes de identificar a mais sutil atitude de preconceito por parte dos avaliadores no processo seletivo, esse profissional também trará à empresa, uma visão mais sensível ao problema nos departamentos ou filiais, no relacionamento com fornecedores e clientes.

A presença de negros em cargos de liderança também pode influenciar positivamente a cidade, estado ou até mesmo o país ou países onde essa empresa está presente. Cada jovem negro que ambiciona tornar-se um executivo de uma grande empresa, verá esses líderes muito mais do que alguém em quem se espelhar, mas a constatação de que seus esforços não serão em vão, que não serão barrados pela cor da sua pele.