quarta-feira, 19 de julho de 2023

ONDE FOI PARAR A VERDADE?

Passeando pelos "Shorts" do YouTube (já que por algum motivo totalmente desconhecido a Meta decidiu que eu não veria mais Reels em sequência), vi um vídeo curto de um senhor bem vestido, aparentemente dando uma palestra onde explica que a rede de fast-food McDonald's usa apenas um tipo específico de batata para toda a sua rede de lojas. A Russet Burbank, uma batata de corpo mais alongado que as demais batatas e muito difícil de serem cultivadas. A escolha dessa variedade específica está no apelo visual das batatas fritas saindo em forma de buquê de dentro da caixinha vermelha.
https://www.gurneys.com/product/potato-russett-burbank-2-lb
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Ainda segundo o palestrante, o controle de qualidade da rede McDonald's é muito criterioso na aquisição das suas batatas, que não podem apresentar manchas. No entanto, é muito comum aparecerem manchas e pontos marrons nessa variedade de batata. Essas manchas, citadas no vídeo como net necrosis (necrose líquida, segundo o Google Tradutor), tiram o valor comercial das batatas para o McDonald's. O que traz um grande prejuízo ao produtor.

De acordo com o palestrante, para que as batatas nasçam sem essas manchas os fazendeiros utilizam um defensivo agrícola chamado Monitor. Esse defensivo agrícola é tão prejudicial a saúde que os funcionários das fazendas onde esse produto é usado são proibidos de percorrer a lavoura após sua aplicação.

Como achei um absurdo estarmos ingerindo um produto químico tão perigoso, fui atrás da confirmação dessas informações para saber se há um estudo sobre a toxicidade dos resíduos encontrados no produto final (a batata frita do McDonald's) e achei uma matéria no politifact.com - um desses sites que verificam fake news.

A matéria não fala especificamente do Shorts que eu vi no YouTube, fala de um vídeo publicado no Instagram e já retirado do ar, mas cita o Michael Pollan, o mesmo senhor que aparece no vídeo do Shorts, como o protagonista do vídeo no Instagram.
E o site faz as seguintes afirmações:
  • O vídeo do Instagram em questão foi marcado como parte de um esforço do Facebook em coibir notícias falsas e desinformação e por isso foi retirado do ar.
  • O defensivo agrícola em questão realmente impede a circulação de pessoas na lavoura de batatas pelos próximos 5 dias à sua aplicação.
  • A Bayer, fabricante do defensivo, solicitou o cancelamento do registro do defensivo em 2009 na Agência de Proteção ao Meio-Ambiente, órgão dos EUA provavelmente análogo ao IBAMA. E como o vídeo é de 2013, trata-se de informação falsa.
Esse é um exemplo bastante expressivo de como voltamos a nos tornar reféns da dúvida.

Antes das redes sociais se tornarem uma plataforma onde todos podem opinar e os celulares, combinados com planos de internet mais robustos, se tornarem uma agência de notícias de bolso, dependíamos da idoneidade de jornais, telejornais e revistas.

O boca-a-boca era respaldado apenas pela confiança do interlocutor. Se o telejornal dissesse o contrário virava fofoca.

Nesse tempo inocente, a idoneidade dos meios de comunicação era inquestionável, a frase "deu no jornal tal" era a confirmação de que se tratava de algo verdadeiro.

Hoje em dia, as agências de notícias independentes nos mostraram que, como toda empresa, os meios de comunicação sempre tiveram seus interesses particulares que, dependendo da notícia, transformavam um "sim" num "não" ou o "certo" no "errado" e vice-versa.

Destituídos do status de instituição ilibada e vendo a verdade ser escancarada em outros meios de comunicação independentes, a única saída foi inundar as redes sociais e sites de notícia com versões e mais versões dos fatos.

Mesmo não sendo de forma explícita, o que os meios de comunicação fazem hoje em dia segue a seguinte linha de raciocínio: "Já que eu não tenho mais credibilidade absoluta, ninguém mais a terá".

Então essa notícia das batatas envenenadas do McDonald's é cheia de lacunas:
  • O vídeo não fala que são 5 dias sem pisar na lavoura após a aplicação do produto, quem fala é o site de verificação.
  • Esse mesmo site que checou os fatos diz que a postagem é de 2013, mas não diz que a palestra foi gravada em 2013.
  • Segundo o site, a Bayer cancelou o registro do Monitor, mas não diz se as fazendas pararam de usar o mesmo produto de outros fabricantes.
  • O que é relevante para o consumidor de batata frita do McDonald's não é se o vídeo é antes ou depois do cancelamento do registro do produto, mas durante quanto tempo foi utilizado e quais os riscos à saúde dos consumidores.
  • Outro fato relevante para o consumidor é: existem outras redes de fast-food usando a mesma batata e o mesmo defensivo agrícola?
E assim as notícias vêm e vão, cheias de lacunas, de fatos distorcidos e de mudanças de foco.

Voltamos ao tempo em que a certeza da verdade não estava ao nosso alcance. A única diferença é que  hoje ela não está nas mãos de ninguém e ao mesmo tempo nas mãos de todos. Cada um com o seu fragmento.

Nos resta escolher nossa fonte de notícias, por algum tipo de afinidade ou relevância nas redes sociais, o que, nem de longe é garantia de fidelidade narrativa.

Mas não se anime!

Caso sua fonte se torne conhecida demais, influente demais ou tenha mais seguidores, mais likes, mais views, mais compartilhamentos ou mais engajamento que a média, será furiosamente mergulhado no brejo onde jazem, quase sem credibilidade, todos os meios de comunicação atuais.

Fontes:

quarta-feira, 12 de julho de 2023

ETARISMO: QUAL É A BRONCA?

Ficar velho está longe de ser a pior coisa da vida. É claro que a juventude, o saudoso tônus muscular de antigamente, o colágeno, a agilidade e a coordenação motora fina fazem falta. Mas isso está longe de ser uma reclamação, afinal tenho saúde, vitalidade e não tenho limitações físicas além da miopia que me acompanhou a vida toda. Sendo assim, esta não conta como limitação já que vejo o mundo através de lentes corretivas desde que me entendo por gente.

No entanto, é raríssimo encontrar pessoas que já passaram dos 40 ou 50 anos que nunca tenham sequer pensado ou dito algo parecido com: "Eu mais jovem (ou com x anos), com a cabeça que tenho hoje...", seguido de algumas observações sobre os diferentes rumos que dariam às suas vidas caso não fossem inexperientes ou imaturos demais para enxergar a má escolha que fizeram no passado.

Já digo logo, não vou entrar na discussão metafísica que essa ideia suscita. É óbvio que a maturidade vem com o tempo. Além disso, existem centenas de paradoxos temporais exaustivamente explorados no cinema e na literatura mostrando que a vida vivida é melhor que a vida sonhada. E obviamente eu seria um jovem muito estranho se isso fosse possível. Mas não é disso que se trata, eu é que divaguei um pouco, me desculpe.

Como o próprio título da postagem diz, não é sobre ficar velho, é sobre como os "enta" são tratados pelos mais jovens.

Para quem não sabe, "enta" é qualquer pessoa que já passou dos 39 anos de idade. Desse ponto em diante o sufixo "enta" fará parte da sua idade.

Quando avançamos além dessa fronteira etária, o mundo parece querer revogar automaticamente tudo que sabemos sobre tecnologia, serviços e até mesmo sobre a linguística, principalmente em seus aspectos semânticos e sociais. Eita! Divaguei de novo, foi mal.

O que acontece é que, de uma hora para outra, parece que desaprendemos a lidar com tecnologias. Nossos celulares são arrancados de nossas mãos por parentes e atendentes por acreditarem que somos incapazes ou lentos demais para lidar com a tecnologia atual.

Em outras situações pedem para digitarmos em (e até apontam) teclados virtuais que já estão diante de nós. Nos mostram em qual lugar da "maquininha" devemos aproximar nossos cartões (mesmo com o símbolo aparecendo na tela ou impresso no corpo da máquina) e demais "gentilezas" do mesmo naipe.

Há também o etarismo físico, mais comum nos homens: são passageiros cedendo lugar em transportes públicos, e pessoas fisicamente mais fracas que eu voluntariando-se para carregar bolsas e sacolas, quando eu as carregaria junto com as bolsas e as sacolas se fosse necessário. Mas esse é menos grave, pois tem a ver com a ignorância alheia sobre a força e a resistência física dos mais velhos.

Saiba que não sou contra assentos preferenciais nem acho errado o sentimento piedoso de simpatia para com os idosos. A subestimação que é o problema. As pessoas se dirigem a nós com uma irritante paciência disfarçada de gentileza. Falam conosco como se estivéssemos acabado de chegar à terra vindo do planeta "Velhurno" e não conhecêssemos as tecnologias nem como interagir com os terráqueos.

Existe uma força invisível tentando nos afastar da vida cotidiana, roubando páginas dos nossos papéis na sociedade, querendo nos convencer que agora existe um narrador contando a nossa história em terceira pessoa.

Nossas habilidades não estão cristalizadas no passado, estamos acompanhando a evolução do mundo e somos plenamente capazes de lidar com eles. Não existe essa ideia de que estranhamos as novas tecnologias.

E a pergunta é essa mesmo: "Qual é a bronca?" Essa era a pergunta que meu pai fazia em casa, e provavelmente no trabalho, quando algo precisava ser resolvido por ele. Carrega a ideia de resolutividade. Quem usa essa expressão veio para resolver, não para tentar. Típico da minha geração.

sábado, 6 de maio de 2023

EINSTEIN E O TIKTOK

 Einstein é um dos cientistas mais relevantes da história. Existe a física antes e depois de Einstein. Aqui e e ali nos deparamos com mitos e verdades acerca dos seus hábitos. Já no quesito "frase célebre", há uma infinidade delas creditadas a ele, sendo que a maioria é apenas fruto de uma lembrança precária.

E tudo acontece de forma semelhante:

Em busca de curtidas e engajamento, uma pessoa deseja fazer uma postagem relevante na sua rede social mas só lembra da frase. O autor? Desconhece ou caiu no esquecimento. Quando não é acometida da preguiça de "dar um Google", acaba frustrada por descobrir que o autor da frase solta em sua memória é uma pessoa de pouca relevância histórica ou uma pessoa cuja biografia não é das melhores: um Mussolini, um Hitler, um um Luís Inácio ou Ted Bundy.

Apostando na preguiça dos seus seguidores e daqueles que verão sua postagem, credita a Albert Einstein uma frase que ele nunca disse. Esse é o relato mais comum de como surgem essas postagens.

Isso remete à sobriedade do escritório de Einstein. O que ele precisava era de uma cadeira, uma mesa ou escrivaninha, papéis, lápis e uma grande cesta de lixo para colocar todos os seus erros - revelou um jornalista do Saturday Evening Post em 1929. Nem mesmo livros eram necessários. Sua mente era ao mesmo tempo biblioteca e laboratório, tamanha a capacidade de concentração.

Não vou negar que pensei na seguinte bobagem: "O que aconteceria se o Einstein fosse contemporâneo das redes sociais?" Apesar de ser uma bobagem infantil, foi o ponto de partida para uma reflexão menos tola.

Sabemos que uma mente cansada pode encontrar nas redes sociais o ambiente perfeito para aliviar tensões com conteúdos divertidos e curiosos.

Mas há um lado nocivo.

Assim que as redes sociais desenvolveram mecanismos para conectar pessoas com interesses semelhantes, as empresas perceberam rapidamente que poderiam usar essa tecnologia para atingir com precisão o seu público consumidor.

A busca pela nossa atenção é algo tão poderosamente lucrativo que os avanços tecnológicos atuais já fazem parte do campo de estudo de neurocientistas, sociólogos, psiquiatras e de quem mais puder colaborar para tornar as redes sociais uma ferramenta eficaz em abduzi-lo da sua "vida analógica".

Tudo bem, você poderia me dizer que os cientistas que estão diante das pesquisas científicas mais relevantes não estão nem aí para as redes sociais. Eu até concordaria com você se essa abdução se restringisse às redes sociais. Ferramentas de comunicação análogas ao WhatsApp e softwares de videoconferência como o Microsoft Teams cumprem o papel das redes sociais em roubar a atenção das pessoas, embora de forma menos intensa.

E assim nascem três perguntas sem resposta:

1. Quantas descobertas científicas já foram perdidas porque o cientista estava distraído demais com essas tecnologias abdutoras da realidade?

2. O saldo entre as vantagens que a tecnologia proporciona e o tempo consumido em distrações proporcionadas é positivo em favor do desenvolvimento da ciência?

3. Será que existe um Einstein contemporâneo distraído com as dancinhas do TikTok em algum lugar do mundo?

Disciplinar o tempo de exposição às redes sociais pode ser um exercício de autocontrole bastante interessante. Sentar em um parque ou à beira do mar e admirar um pôr do sol sem fazer uma selfie é um forte sinal de que você ainda está no controle.

domingo, 19 de fevereiro de 2023

TUDO PASSOU

E então, tudo passou!

E eu que achei que viveríamos ainda longos meses, ou talvez anos, recuperando as lacunas de desumanidade e as consequências da indecente falta de empatia do ex-presidente. Achei que passaríamos um ano ou dois desfazendo malfeitos e reintegrando aos seus postos de trabalho pessoas caridosas e sensatas que foram afastadas dos seus quase abnegados cargos em órgãos públicos. Que demoraríamos um bom tempo para retomar a economia pujante interrompida pela desastrosa administração direitista.

Achei que ainda demoraríamos para subjugar a nociva, preconceituosa e elitista tradicional família brasileira que andava solta pelas ruas dando pontapés em minorias e cuspindo na cara dos menos favorecidos. Assim como imaginava que demoraríamos longos anos para recuperar a nossa credibilidade internacional, tão achincalhada pelos golpistas. Indesejáveis inquilinos do palácio que destruíram a mobília, o prestígio e a liturgia do cargo.

Qual nada!

Essa guinada completa nos rumos do país em direção ao desenvolvimento e a retomada do crescimento econômico fez desaparecer magicamente todos os desastres administrativos dos últimos quatro anos. Não é mais necessário vigiar os gastos públicos ou a inflação. Os atos antidemocráticos sumiram, o fascismo dos poderosos e devastação da Amazônia desapareceram como uma cortina de fumaça.

Agora sim, estamos novamente no rumo certo do crescimento econômico, do lado certo da história e construindo a narrativa correta para que a nefasta direita nunca mais ouse tomar para si o que a história já mostrou ser desígnio e predestinação dos progressistas.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

INCREDULIDADE E TRAIÇÃO

A primeira vez que o Luís Inácio da Silva concorreu à presidência foi em 1989, perdendo no segundo turno para Fernando Collor de Mello. Depois viria a perder mais duas, em 1994 e em 1998, ambas para Fernando Henrique Cardoso.

Em 1989 e ainda por muitos anos, o lema "política, futebol e religião não se discute" se manteria como consenso nacional. Ninguém concordava em nada sobre nenhum político. A falta de informação confiável era tanta, que passamos a acreditar que um político honesto era tão real quanto um unicórnio.

De um modo geral, o brasileiro médio estava pouco se lixando para o que acontecia nos bastidores da política. Como todos roubam, era melhor esquecer o assunto e tentar viver com que estava ao alcance dos olhos e do bolso.

A única alternativa que ainda não havia sido testada era um presidente de esquerda. Havia um modesto grupo com certo engajamento político, num tempo onde as informações dependiam de um certo esforço para serem encontradas. Não é como hoje, que tudo está ao alcance de meia dúzia de toques no celular. Para um povo que havia condenado a política ao ostracismo, esse magro conhecimento político desse modesto grupo já era muito. Eram vistos como politizados e com uma apurada consciência social.

Eram facilmente reconhecidos nas ruas. Boinas vermelhas, camisetas do Che Guevara e broches com uma estrela vermelha com a 16ª e 20ª letra do alfabeto inscritas eram o enxoval típico desse grupo. Ouvir aquelas pessoas falando era algo curioso. Apesar da verborragia política impressionar, algum conhecimento de história era suficiente para perceber que o discurso era meio embolorado, pois falava de luta de classes, da burguesia versus o proletariado, falava da ditadura, de repressão policial e outras coisas do passado. Mas era inegável que havia um brilho nos olhos daquelas pessoas. E para um povo tão carente de informação sobre política, era fácil acreditar que aquele modesto grupo talvez pudesse conhecer o caminho que nos livraria definitivamente do terceiro mundismo, da pecha de "país do futuro", do futuro que nunca chega.

Independente daquelas ideias fazerem sentido ou não, havia uma alternativa ainda não testada. Um homem do povo no poder? Interessante! Todos os quatro presidentes após João Batista Figueiredo, o último dos militares, não poderiam ser chamados de homens do povo. Um advogado, um ex-governador, um engenheiro militar e um ex-ministro da fazenda não encaixavam na moldura do típico trabalhador brasileiro, esses homens não representavam o povo.

Quando o ex-metalúrgico-sindicalista foi eleito, o sentimento era de que havíamos escolhido a pessoa certa para a cadeira de Presidente da República. Finalmente havia um homem do povo lá. Até então, ninguém havia achado estranho que o sindicalista radical que tantos queriam ver como presidente, teve que ser repaginado para a versão "paz e amor" para que a maioria dos eleitores quisessem votar nele.

Treze anos e duzentos e quarenta e três dias depois. Os grandes avanços na informática e nas telecomunicações revelaram aos olhos do mundo quem aquele sindicalista radical havia se tornado. Era natural que o primeiro sentimento de quem votou, torceu, fez campanha, distribuiu panfletos, balançou bandeiras e organizou passeatas fosse de negação. É fácil entender que o golpe foi duro para aqueles que o viam como a esperança de construir um novo país.

O avanço nas telecomunicações também atingiu as tevês e os jornais. Provavelmente todas aquelas acusações e condenações não passavam de um plano arquitetado pelos antigos donos do poder para retirar o povo do poder. Era difícil acreditar que o mote de campanha "o amor venceu o medo" havia se transformado na maior sequência de crimes contra o patrimônio público da história mundial.

Tirando aqueles que serão beneficiados direta ou indiretamente com a sua reeleição, o que sobra são brasileiros incrédulos, incapazes de superar o fato de que o amor não venceu o medo. Era o medo disfarçado de esperança. Há de se considerar que foi um duro golpe, no coração, eu diria, daqueles que o viam como um verdadeiro líder. O homem que colocaria, de uma vez por todas, o país nos trilhos da ordem e do verdadeiro progresso.

Decepcionados, com a criminalidade em alta e a economia em baixa, elegemos mais um radical em 2018. Dessa vez o escolhemos cru mesmo, sem ser repaginado, sem maquiagem, sem falsos sorrisos e sem marqueteiro. Isso só foi possível porque passamos a viver em um mundo onde nada é feito às escondidas na presença de um celular. Qualquer um de nós hoje é uma testemunha ocular mundial do que acontece. Filmamos desde assaltos à mão armada até cuecas cheias de dinheiro em 4K. E se quisermos, dá até para transmitir ao vivo.

Portanto não vejo o que sobrou da esquerda como uma massa homogênea de gente mau-caráter. Há sim, os que querem retomar as suas atividades "cabulosas", mas estes são poucos, embora poderosos. O restante é um povo magoado, traído, incrédulo e triste. Que ainda nutre a esperança de que alguém vai chegar com uma notícia bombástica ou uma explicação mirabolante para tudo que vimos nestes treze anos e duzentos e poucos dias de roubalheira e corrupção. A realidade ainda é muito dura para os apaixonados corações vermelhos.

Finalmente, esses quatro anos que esquerda ficará no poder poderá nos levar a dois caminhos. O primeiro e menos provável será a tentativa de limpar o próprio nome, de tentar convencer o povo de que tudo não passou de um mal-entendido, de um plano orquestrado pela oposição para manchar a imagem da alma mais honesta do Brasil. A segunda e mais provável, é que o grande acordo com o STF e com tudo, será retomado e as falhas que levaram ao desmonte do tal grande acordo sejam corrigidas.

Seja qual for o caminho que tomarem, passaremos quatro anos vivendo em um mundo irreal, onde a verdade é uma linda embalagem com uma podre mentira dentro.

domingo, 24 de julho de 2022

ARTE X ENTRETENIMENTO

Segundo o dicionário Oxford, arte é habilidade ou disposição dirigida para a execução de uma finalidade prática ou teórica, realizada de forma consciente, controlada e racional. Ou o conjunto de meios e procedimentos através dos quais é possível a obtenção de finalidades práticas ou a produção de objetos; técnica.

Partindo simplesmente das duas definições do dicionário, podemos observar que, na primeira, a arte é realizada de forma consciente, e na segunda, que a arte envolve técnica.

Sendo assim, podemos entender que arte demanda trabalho, concentração, prática, técnica e estudo. O dom tem mais relação com uma responsabilidade a ser assumida e aprimorada do que com um privilégio a ser usufruído.

Uma pessoa com aptidão para o canto, por exemplo, precisa treinar, praticar e estudar para aprimorar o seu canto. É justamente por ter uma boa voz que essa pessoa precisa de todo esse investimento. Quem não nasceu com uma voz tão boa, vai aprender as mesmas técnicas, vai estudar e praticar, mas não alcançará o mesmo virtuosismo.

Um exemplo famoso deste último caso é o Chico Buarque, muito mais talentoso compositor do que intérprete de suas próprias canções. Ciente das limitações da sua voz, desenvolveu técnicas a fim de compensar seu pouco tônus vocal. Ao contrário de Elis Regina, uma voz potente e afinada, apesar do cigarro, que não era compositora, mas fazia interpretações magistrais das canções que lhes eram confiadas.

Uma outra característica da arte é o embevecimento, ninguém entra na capela sistina e fica conversando sobre o tempo e o preço da gasolina. A não ser que tenha entrado lá por acaso e não olhou para cima ou intencionalmente não pretendia prestar atenção nos afrescos do teto.

É seguindo essa lógica que podemos entender porque as letras do Chico Buarque e as interpretações da Elis Regina não são as primeiras opções de música em um bar. A não ser que seja um bar temático, as músicas de artistas como esses nos levam a ficar contemplativos. E quem está contemplativo não bebe e nem come.

Para o dono de bar, a melhor música é aquela que faz o cliente consumir. Ele não está interessado em poesia, rima ou métrica, o propósito do bar é vender. De olho nesse mercado nada exigente, pessoas muito astutas criaram um tipo de entretenimento sonoro que nada tem a ver com arte.

Apesar de estarmos falando da música, esse raciocínio também serve para a literatura, as artes plásticas ou o teatro.

Para saber se estamos diante de arte ou entretenimento, basta observar o seguinte: quando não há arte é preciso criar outros estímulos para prender a atenção do espectador. Na literatura, são os livros que ganham notoriedade após virarem filmes. Nas artes plásticas são as pinturas que ganham notoriedade após serem compradas por alguma celebridade. E no teatro são as peças teatrais que, por exemplo, abusam do nu e do palavrão sem contexto para despertar a curiosidade em vez das emoções da plateia.

Na música não é diferente. Os shows de entretenimento sonoro consomem um aparato de efeitos visuais muito maior do que quando há um artista se apresentando. Sob o pretexto de "criar uma atmosfera" ou uma "experiência sensorial", desvia-se a atenção do público para efeitos visuais como lasers, telões ou pirotecnia.

Mesmo em shows de rock, onde os efeitos visuais são comuns, quando há arte, os efeitos apontam para os artistas ou para a música que está sendo executada, como as explosões na hora do refrão, ou na parte mais contundente da letra, por exemplo.

Quando se trata de entretenimento sonoro, os efeitos visuais visam demonstrar grandeza e sucesso financeiro. O objetivo é convencer a audiência de que, se há dinheiro para uma produção caríssima, é porque são bem sucedidos, e se são bem sucedidos devem ser bons mesmo. É sob essa estratégia que temos hoje shows de entretenimento sonoro com produções caríssimas sem nenhum compromisso com a arte.

É por isso que o ritmo de shows é frenético: ao mesmo tempo precisa bancar uma produção caríssima, por não ser arte, o auge se torna um lugar efêmero e escorregadio.

E é por isso que os bares preferem o entretenimento sonoro. Ninguém está extasiado com a letra, nem admirado com a bela voz do cantor ou com o virtuosismo dos músicos. Até porque não há letra, voz ou virtuosismo a ser apreciado. Como a banda não está presente com sua produção milionária, é só o áudio, sobram apenas as tristes histórias de traição ou bebedeira contada em rimas pobres e em altíssimo volume.

terça-feira, 19 de julho de 2022

NEOLOGISMO SEMÂNTICO

A língua portuguesa é a nossa ferramenta de representação dos nossos pensamentos, ações e interações com os outros falantes da nosso idioma. Sua transformação está condicionada à nossa evolução social. O vocábulo "você", evolução sociolinguística da expressão vossa mercê, é um bom exemplo dessa transformação.

Outros exemplos de neologismo semântico é quando seu chefe fica uma "arara" sem se transformar em uma ave, ou quando seu vizinho faz um "gato", mas não gera um felino sequer.

A dicionarização desses neologismos semânticos não aconteceu da noite para o dia, pelo contrário, suas raízes históricas são profundas, algumas perdidas para sempre por falta de registro ou porque sua história é puramente oral.

Outras, conhecidas, de vez em quando, ganham as redes sociais com sua natureza semântica modificada, geralmente apontando para temas sensíveis, objetivando engajamento, publicidade, interação, visualizações, etc. Não há compromisso em informar apenas em dar às plataformas, tão desinformadas quantos os que comentam, a falsa impressão que aquela discussão interminável é edificante ou produtiva.

Uma das mais famosas é a expressão "nas coxas". Dizer que algo foi feito "nas coxas" nunca teve qualquer conotação racista. Imagine quão curta seria a carreira de um construtor no período em que a escravatura era legalizada, ao tentar construir um telhado com telhas das mais variadas medidas de comprimento, largura e concavidade. A expressão realmente significa algo feito sem capricho, mas somente porque está apoiado nas coxas, sem firmeza.

A dicionarização de palavras ou expressões com significados diferentes do original está condicionada à sua popularização, uma evolução natural sem motivação política ou finalidade remediativa.

A língua portuguesa não é o foro mais inteligente para reparar questões sociais, culturais, étnicas ou de gênero. Veja o caso da expressão fazer um "gato" citada no segundo parágrafo. Especula-se que pode ter relação com gatuno, com o próprio gato como um animal capaz de furtar comida ou com a expressão "o pulo-do-gato", a menos provável.

E ainda há a explicação dos moradores da cidade portuguesa de Coimbra. De acordo com os mais antigos, a expressão tipicamente brasileira "fazer um gato" pode ter ligação com o trabalho de remendar um vaso de cerâmica quebrado. Os ceramistas que fazem esses remendos imperceptíveis são chamados de gatos. E assim como um vaso remendado retoma a aparência de estar intacto, a ligação clandestina de energia elétrica ou de internet aparenta ser legítima.