sábado, 22 de fevereiro de 2025

O QUE HÁ POR TRÁS DA PÍLULA VERMELHA

A geração Z não estava viva quando o projeto de dominação e poder começou no Brasil.

Há muitos anos começou a surgir no BR um monte de faculdade particular. As "pagou-passou", como eram chamadas as faculdades particulares no seu alvorecer, contribuíram muito para o processo de assoreamento da educação brasileira, levando ao surgimento de um tipo muito perigoso.

O sujeito que acha que sabe.

Se não estivéssemos vivendo esse empobrecimento educacional, eu não precisaria escrever este parágrafo, mas ei-lo: não são todas as faculdades, há instituições bem intencionadas que fazem um bom trabalho com seu corpo discente.

Basta buscar no Google "doutorados inúteis no Brasil" para descobrir como o dinheiro do contribuinte é sistematicamente desperdiçado e como uma pessoa pode parecer intelectual decorando as palavras certas como por exemplo: "as dinâmicas das interações"; "fulano é um feixe de relações..." e a expressão que eu mais gosto: "processos multissemióticos". 

O Brasil de hoje é o resultado de um longo e meticuloso trabalho de vulgarização do título acadêmico e de desertificação da produção científica e tecnológica brasileira.

Ninguém mais tem conversas profundas sobre nada. Fala-se apenas de pessoas e coisas. O mundo das ideias espatifou-se em cosmos individuais indiscutíveis. Hoje em dia uma pessoa pode usar publicamente a expressão "a minha verdade" sem parecer ridículo ou imbecil.

Esse é um território já conquistado. Basta dois minutos de conversa com um egresso do ensino médio para perceber o sucesso da primeira fase do projeto.

Hoje estamos na metade da segunda fase: dividir as pessoas em pessoas do mal e pessoas do bem. E o mundo já dá claros sinais do sucesso dessa nova fase. Em muitos lares no BR e ao redor do mundo já temos um elefante na sala, como dizem os norte-americanos. Um tabu, um assunto no qual não podemos tocar.

E por se tratar de um projeto de poder, a política foi o piloto desse projeto. Por isso vivemos, divididos em dois grandes grupos: a seita dos liberais democratas e a seita dos conservadores republicanos. Aqui no BR a gente só chama de direita e esquerda, com a educação assoreada que temos, nos faltam habilidades para dar a mínima complexidade em nossos espectros políticos. Até porque não há espectro, é binário. Nós contra vocês.

Então o que nos resta é orar por dois milagres: que esse projeto dê errado em algum ponto e surja a oportunidade de fazermos o caminho de volta, Isso deverá nos custar duas ou três gerações até conseguirmos entrar no caminho do verdadeiro crescimento como povo e nação.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

PALAVRAS AO VENTO


O ar-condicionado é uma maravilha da ciência. Há algum tempo eles ganharam a tecnologia do inversor que mantém o compressor funcionando em baixa rotação em vez de "dar um tranco" na energia evitando o liga-desliga.

Mas não vamos esquecer do querido ventilador, que segurou essa barra de resfriar o ambiente durante muitos anos e é sobre ele que eu gostaria de tecer alguns comentários.

Sou nativo de uma cidade quente do Nordeste, mas hoje moro numa cidade de clima mais ameno. Fica até bem friozinho em alguns meses do ano. Sendo assim, o ar-condicionado por aqui acabou virando, de certa forma, um artigo de luxo. No verão, a cidade não vira um forno a céu aberto como na minha cidade natal, mas certamente justifica comprar o rapazinho que passa a noite como se estivesse assistindo a uma partida de tênis.

De mesa, de pedestal ou de parede, o ventilador traz uma função extra - tornar impraticável as condições de voo dos mosquitos (muriçocas na minha cidade).

É claro que o maravilhoso ar-condicionado também tem essa função, já que os mosquitos não conseguem levantar voo com os pesados agasalhos que precisam vestir para não morrer de hipotermia.

Mas uma coisa que pouca gente percebe, é que o ventilador expressa de forma discreta, como a nossa sociedade “perdeu a mão” quando o assunto é oferecer um bom produto.

Tirando as pessoas que conseguem dormir na Marquês de Sapucaí em pleno desfile carioca ou na cerimônia da troca da bandeira em Brasília. O silêncio tem um papel importante no sono da maioria das pessoas.

Quando fui comprar um ventilador para amenizar os efeitos do curto verão centro-planaltino, percebi que não existem os silenciosos ventiladores lentos da pá mais larga e inclinada. Nas lojas só é possível comprar versões reduzidas de hélices de aviões. E quanto mais veloz e mais vento produz, mais valorizado ele é.

Se você procurar por “ventiladores de baixa rotação” na internet, as primeiras centenas de respostas são para defeitos e o que fazer para ele voltar a apagar velas de bolo a 300m de distância.

O consumidor já foi convencido disso. Parece que ninguém quer um ventilador silencioso, que sopre um bom volume de vento, apenas suficiente apenas para amenizar o calor e prejudicar as condições de voo das pequenas hematófagas aladas – Não!

As pessoas querem um tornado dentro do quarto, querem que todas as bolas de poeira que repousam calmamente sob a cama comecem a flutuar numa grande valsa de rinite e coriza.

Os ventiladores de hoje são um epítome da sociedade de consumo e seu jeito raso de pensar: se o ventilador ventila, então quanto mais ventilar melhor.

Mas do que eu estou falando? Já passei dos cinquenta, estou ultrapassado, não entendo as tendências e as necessidades da sociedade moderna, isso não passa de saudosismo!

Será?

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

PRESO POR UM COPO D'ÁGUA

Ocorreu um grande roubo a banco. Não houve um só veículo de comunicação no país que não comentasse o assunto. O que mais chamou a atenção de todos foi a quantia recorde e o fato de não ter sido disparado um único tiro.

Virou o assunto do momento: mesa de bar, churrasco da família, aniversários e até reuniões em grandes empresas eram palco para conversas animadas sobre criminologistas de araque, investigadores de geladeira e gente confessando os sonhos que realizaria com o montante roubado.

Especialistas de internet, então, surgiram às centenas, dando suas versões mirabolantes de como tudo teria sido feito tendo as "vozes em suas cabeças" como fonte principal.

Passados cinco anos, as investigações não avançaram. O que se sabia àquela altura era o mesmo que se sabia horas após o roubo: um único homem, entre meio-dia e três horas da tarde, levou uma quantia absurda de dinheiro que só ficaria naquele banco por vinte e quatro horas. Ninguém havia visto, ouvido ou sabia de nada.

A cidade de Piraíba do Sena é uma dessas cidades minúsculas cujas edificações mais relevantes são a prefeitura, a igreja e a praça. O prédio mais alto da cidade é a sede do único comércio de secos de molhados da cidade: o Mercadão Sena. A cidade ganhou esse nome por causa do finado Aristides Sena, o primeiro prefeito da cidade.

A história que se conta é que o nome da cidade se deve a uma Piraíba de três metros pescada pelo então jovem Aristides quando ainda não tinha aspirações políticas.

No dia seguinte ao aniversário de cinco anos do famigerado roubo, um sedã de luxo para em frente ao bar do Correia. Do banco de trás do carro sai um homem bem vestido que se dirige à mesa onde bebem três piraibenses e lhes pergunta: quem é que manda nesta cidade? Os três se entreolham e um deles responde:

- O prefeito é o dr. V...
- Não, não, eu perguntei quem é que manda na cidade.
- Tem o delegado Pompeu e o padre Tomás.
- Não, eu quero saber é quem manda mesmo aqui. Quem manda no prefeito e no padre.
- Ah, então o senhor quer falar é com a dona Ernestina, mulher do prefeito - diz mais um dos piraibenses à mesa.

Depois da gargalhada geral, um dos homens à mesa franze o cenho e diz:

- O senhor quer falar é o com o dr. Luiz Antônio Sena, neto do velho Arisitides, que Deus o tenha (todos à mesa fazem o sinal da cruz). Ele é o herdeiro do "véio". É dono do maior comércio daqui e da maioria das casas de Piraíba. Inclusive da que está alugada para a amante do prefeito (riso geral). Ele ainda é dono do posto de gasolina na saída da cidade e da fazenda que fica atrás daquele morro ali (apontando para o morro).

- Então é com ele que eu quero falar. Onde ele mora?

- Na casa dele é difícil o senhor achar o homem. A maneira mais fácil de falar com ele é sexta-feira no bar de Zefinha Ferraz é lá que ele se encontra com o prefeito. Dizem as más línguas que até o padre já foi visto na mesa deles no bar de Zefinha. Como hoje é sexta-feira, é capaz do senhor encontrar ele por lá.

Ao cair da noite, o homem entra no bar e imediatamente nota uma mesa onde estão sentados três homens, cada um com uma mulher no colo. Como era a única mesa sobre a qual havia uma garrafa de uísque e eram os homens mais bem vestidos do local, percebeu que não precisava perguntar nada a ninguém.

À medida que dispensava, até com certa rudeza, as investidas das "funcionárias" de Zefinha Ferraz, caminhou reto em direção à mesa deles. Quando foi notado, abriu um sorriso e estendeu a mão ao homem à direita cumprimentando os outros dois em seguida. Após ser convidado a sentar à mesa e identificar-se formulou sua proposta aos três:

Abriu um aplicativo de um banco estrangeiro, estendeu seu celular em direção ao rosto de cada um e disse:

- Vou direto ao ponto: tenho nove milhões de reais em minha conta, são três milhões para cada um. A única coisa que preciso é que os moradores da cidade confirmem que nasci, cresci e moro nesta cidade caso apareça alguém perguntando.

Os homens arregalaram os olhos, se entreolharam e começaram a falar:

- O primeiro disse: eu sou Valdeci Pestana, prefeito de Piraíba do Sena, passe na segunda-feira na prefeitura para receber seu histórico escolar. Para todos os efeitos, o senhor estudou na E.M. Cremilda Sena do fundamental ao médio.

- O segundo disse: eu sou o padre Tomás, passe na segunda-feira na paróquia para receber sua certidão de batismo.

- O terceiro, mais falante, disse: meu nome é Luiz Antônio Sena, sou neto do homem que praticamente fundou desta cidade. Aqui, quem não trabalha pra mim, aluga uma das minhas casas. Não é meu prefeito? Perguntou sorrindo.

Na segunda-feira o senhor, por favor, ande pela cidade. O senhor só vai encontrar dois tipos de pessoa: gente que lembra do senhor brincando na rua quando criança e gente que foi seu contemporâneo na escola. Se o senhor não se importar, é capaz de ter até uma ou duas funcionárias minhas prontas a confidenciar sobre um namoro com o senhor no passado ao primeiro que perguntar.

Após fechar o acordo e sair do bar, pensou: esse acordo foi uma pechinha.

Na segunda-feira pela manhã, chegam à cidade centenas de repórteres e policiais.

Seguia à pé, algemado e escoltado até a viatura da polícia imaginando qual dos três o havia traído. Ao levantar a cabeça vê a dona do bar, Zefinha Ferraz no meio da praça, dando entrevista a uma repórter:

Uma das minhas funcionárias ouviu toda a conversa, moça. Depois que ele saiu, cheguei na mesa dos três e disse: quem manda nesta cidade sou eu! Se vocês fizerem alguma coisa para ajudar esse mão-de-vaca, na segunda-feira as mulheres dos dois e o bispo vão saber onde vocês se encontram na sexta-feira à noite. Como é que esse sujeito entra no meu estabelecimento, trata mal minhas funcionárias, senta na mesma mesa de Valdeci, Tomás e Luizinho, meus clientes VIP há anos e não pede um copo d'água? Não deixei barato!

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

É BOM SER CANHOTO?

A década de 70 havia começado há apenas 190 dias quando eu vim ao mundo. Felizmente, nessa época, os pais e professores já não obrigavam mais os filhos a usar a mão direita, isso era coisa do passado.

Embora na minha juventude eu tenha conhecido pessoas que haviam sido obrigadas a usar a mão direita na sua fase escolar, essas pessoas eram mais velhas que eu e foram educadas em outra época. Eram tempos com menos conhecimento, e as crianças apenas seguiam as ordens dos mais velhos sem questionar. Enfim, eram tempos mais duros para as crianças.

Então eu cresci canhoto de braços e pernas. Quando ia escrever, era com a mão esquerda, na hora da bola, do futebol no campinho, o chute só saia com a perna esquerda. A direita não servia nem para dar um passe decente no futebol. Como o jogo era descalço, era comum eu voltar para casa com o pé direito mais limpo que o esquerdo.

Somente na escola eu comecei a sentir alguma dificuldade em ser canhoto. O problema não apareceu nos primeiros anos escolares, afinal sentávamos numa pequena mesa redonda no jardim de infância e quando começamos a sentar em fileiras, as carteiras eram de dois lugares.

Mas isso só durou até os três primeiros anos do que se chamava naquela época de primário. Nos anos seguintes, as carteiras seguiram individuais até o final do ensino médio (antigo segundo grau) e eu tive que me adaptar.

Apesar de ser uma ótima escola, estávamos vivendo os primórdios da administração. Informações dessa natureza sobre os alunos não eram levadas em consideração. A escola distribuía algumas poucas carteiras para canhoto em algumas salas, mas era muito raro eu sentar em uma. Até porque, essa era uma descoberta que acontecia no primeiro dia do ano letivo. Se não havia carteiras para canhotos na sala naquele ano, essa seria a realidade até o ano letivo seguinte.

Com o passar dos anos eu desisti da carteira para canhoto e me adaptei ao uso da carteira para destro. Naquela época, o tampo pequeno obrigava os canhotos a ficarem levemente curvados para a direita para escrever sobre a carteira.

Mas isso não me causou prejuízo nem a curto ou a longo prazo. Naquela época de tantas descobertas, ficava tão inquieto fisicamente quanto mentalmente. Era preciso fazer muito esforço para prestar atenção na aula com o mundo acontecendo à minha volta.

Com o passar do tempo eu descobri que meu hiperfoco só acontece no silêncio. Qualquer música ou conversa rouba a minha atenção completamente. Dependendo da intensidade do ruído, seja conversa, música ou obra, o máximo que eu consigo é um foco intermitente ou de baixa qualidade. Imagine então naquela época, na companhia de dezenas de adolescentes como eu?

Então era mais fácil ficar com o fundilho da calça polido de tanto sambar na carteira olhando para todas as direções, do que com algum tipo de dor física por estar usando uma carteira para destro. Naquela época eu não sabia o que era ficar dolorido depois de horas sentado na cadeira.

Mão esquerda suja de grafite
Uma outra coisa que ficava com o aspecto polido era a parte externa da mão esquerda até o dedo mindinho. Esse ficava grafitado! Os canhotos, em sua maioria, apoiam a mão sobre o que acabaram de escrever. E como o uso do lápis era frequente, essa parte da mão ficava com um tom cinza-prateado.

Eu nunca tive a curiosidade em saber mais sobre ser canhoto. Só sei que os hemisférios cerebrais têm suas funções trocadas e só. Atividades que exigem o uso das duas mãos como os teclados de computadores e a condução de veículos são aprendidas com a mesma facilidade que os destros, não há vantagem ou desvantagem.

Só tem uma coisa que me incomoda. É quando eu estou usando uma ferramenta ou realizando alguma atividade manual mais complexa perto de um destro ansioso que confunde a minha habilidade com a minha mão esquerda com a (falta de) habilidade da mão esquerda dele.

Eu normalmente interrompo o que estou fazendo e cedo a vez ao destro. Não adianta explicar que um canhoto é tão hábil quanto um destro, ele já foi vencido pela crença de que o motivo da aflição dele é porque eu uso a "mão errada" ou estou fazendo tudo "trocado".

Com o tempo, nossas habilidades se expandem e o nosso lado direito se desenvolve. Não tanto quanto o esquerdo, mas como um coadjuvante aprimorado e e cada vez mais útil nas tarefas do dia-a-dia. Se tenho um lado direito em mim, este permanece no âmbito dos pensamentos para evitar conflitos desnecessários.

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

SEM CAFÉ, SEM MEIAS

As manhãs para mim são sempre um desafio. Eu sempre preciso acordar mais cedo, cerca de meia hora antes de levantar para que as coisas comecem a fazer algum sentido. Do contrário sou capaz de situações como colocar a água na cafeteira e esquecer de colocar o pó de café.

Eram cinco e meia da manhã e o despertador tocou impiedosamente anunciando o início de mais um dia de trabalho. Nem o sol havia decidido levantar-se ainda e eu, ainda meio sonolento, dei bom dia para minha mulher e corri para o chuveiro - o único lugar capaz de espantar aquela sensação de "corpo andando pela casa e alma na cama".

No entanto, uma batalha mental estava prestes a começar, e eu não fazia a menor ideia.

Após um banho levemente frio, o ritual matinal transcorreu sem maiores percalços. Barba, dentes, desodorante, perfume e marchei, determinado, rumo ao guarda-roupa para escolher uma roupa decente. Tudo estava indo bem até chegar aos pés. Quando abri a gaveta onde as minhas meias habitualmente dividem espaço com as minhas cuecas, parecia que eu havia aberto a gaveta do Bozo.

Não que eu estivesse surpreso com as minhas meias de cores vibrantes. Acontece que eu não poderia ir ao trabalho com nenhuma daquelas meias. Não queria correr o risco de me sentar em alguma poltrona baixa e revelar uma meia preta cheia de alienígenas verdes ou uma meia listrada de vermelho amarelo e roxo. E essas são as mais discretas.

Já as minhas meias sociais, as escolhas óbvias para aquela circunstância, estavam todas desacompanhadas dos seus respectivos pares. Haviam se evaporado como se tivessem se divorciado dos seus cônjuges e ido embora de casa. Ou como se tivessem sido levadas através da plataforma 9 ¾ na estação King's Cross a fim de libertar um grupo de Elfos domésticos no universo de Harry Potter.

Minha mulher é uma pessoa muito organizada. Ainda não havia passado um ano de casamento quando ela me "presenteou compulsoriamente" com uma daquelas colmeias de organizar meias e cuecas. Só que nos nichos daquela colmeia não havia sequer um pé cinza escuro e outro preto de meias sociais para cogitar tal possibilidade. Eram apenas meias pretas e brancas solitárias em seus nichos. Era isso ou algum par das minhas meias nada discretas.

Percebendo que aquela decisão poderia me fazer perder minutos importantes, fui para a cozinha, me servi do café e me sentei à mesa para o habitual desjejum com a minha esposa enquanto decidia o que separaria meus pés do couro do sapato.

Foi aí que eu descobri, na prática, os benefícios do café quando se trata de estimular o raciocínio e a memória. Me vi fazendo parte da legião de pessoas que dizem só acordar após tomar café.

Há dois dias, em pleno sábado de arrumação e lavagem de roupa, peguei as meias que a minha mulher havia deixado sobre a cama para eu guardar e, por preguiça na pressa, coloquei os pés em nichos diferentes. Com o cérebro, ainda esquentando as válvulas como as antigas tevês de tubo, não me dei conta de que se tratava de pés de meias iguais guardados em nichos diferentes.

Sorri de mim mesmo discretamente enquanto tomava mais um gole de café. Talvez tentando esconder o riso atrás da caneca, ou quem sabe aproveitei o gesto de soprar o café para conter a risada.

Passada a vontade de dar uma gargalhada, olhei para a minha mulher com um resto de sorriso no rosto e disse: 

Bom dia, amor. Acabei de acordar!

Aluguei essa quitinete da mente dela e segui com a vida.

quarta-feira, 19 de julho de 2023

ONDE FOI PARAR A VERDADE?

Passeando pelos "Shorts" do YouTube (já que por algum motivo totalmente desconhecido a Meta decidiu que eu não veria mais Reels em sequência), vi um vídeo curto de um senhor bem vestido, aparentemente dando uma palestra onde explica que a rede de fast-food McDonald's usa apenas um tipo específico de batata para toda a sua rede de lojas. A Russet Burbank, uma batata de corpo mais alongado que as demais batatas e muito difícil de serem cultivadas. A escolha dessa variedade específica está no apelo visual das batatas fritas saindo em forma de buquê de dentro da caixinha vermelha.
https://www.gurneys.com/product/potato-russett-burbank-2-lb
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Ainda segundo o palestrante, o controle de qualidade da rede McDonald's é muito criterioso na aquisição das suas batatas, que não podem apresentar manchas. No entanto, é muito comum aparecerem manchas e pontos marrons nessa variedade de batata. Essas manchas, citadas no vídeo como net necrosis (necrose líquida, segundo o Google Tradutor), tiram o valor comercial das batatas para o McDonald's. O que traz um grande prejuízo ao produtor.

De acordo com o palestrante, para que as batatas nasçam sem essas manchas os fazendeiros utilizam um defensivo agrícola chamado Monitor. Esse defensivo agrícola é tão prejudicial a saúde que os funcionários das fazendas onde esse produto é usado são proibidos de percorrer a lavoura após sua aplicação.

Como achei um absurdo estarmos ingerindo um produto químico tão perigoso, fui atrás da confirmação dessas informações para saber se há um estudo sobre a toxicidade dos resíduos encontrados no produto final (a batata frita do McDonald's) e achei uma matéria no politifact.com - um desses sites que verificam fake news.

A matéria não fala especificamente do Shorts que eu vi no YouTube, fala de um vídeo publicado no Instagram e já retirado do ar, mas cita o Michael Pollan, o mesmo senhor que aparece no vídeo do Shorts, como o protagonista do vídeo no Instagram.
E o site faz as seguintes afirmações:
  • O vídeo do Instagram em questão foi marcado como parte de um esforço do Facebook em coibir notícias falsas e desinformação e por isso foi retirado do ar.
  • O defensivo agrícola em questão realmente impede a circulação de pessoas na lavoura de batatas pelos próximos 5 dias à sua aplicação.
  • A Bayer, fabricante do defensivo, solicitou o cancelamento do registro do defensivo em 2009 na Agência de Proteção ao Meio-Ambiente, órgão dos EUA provavelmente análogo ao IBAMA. E como o vídeo é de 2013, trata-se de informação falsa.
Esse é um exemplo bastante expressivo de como voltamos a nos tornar reféns da dúvida.

Antes das redes sociais se tornarem uma plataforma onde todos podem opinar e os celulares, combinados com planos de internet mais robustos, se tornarem uma agência de notícias de bolso, dependíamos da idoneidade de jornais, telejornais e revistas.

O boca-a-boca era respaldado apenas pela confiança do interlocutor. Se o telejornal dissesse o contrário virava fofoca.

Nesse tempo inocente, a idoneidade dos meios de comunicação era inquestionável, a frase "deu no jornal tal" era a confirmação de que se tratava de algo verdadeiro.

Hoje em dia, as agências de notícias independentes nos mostraram que, como toda empresa, os meios de comunicação sempre tiveram seus interesses particulares que, dependendo da notícia, transformavam um "sim" num "não" ou o "certo" no "errado" e vice-versa.

Destituídos do status de instituição ilibada e vendo a verdade ser escancarada em outros meios de comunicação independentes, a única saída foi inundar as redes sociais e sites de notícia com versões e mais versões dos fatos.

Mesmo não sendo de forma explícita, o que os meios de comunicação fazem hoje em dia segue a seguinte linha de raciocínio: "Já que eu não tenho mais credibilidade absoluta, ninguém mais a terá".

Então essa notícia das batatas envenenadas do McDonald's é cheia de lacunas:
  • O vídeo não fala que são 5 dias sem pisar na lavoura após a aplicação do produto, quem fala é o site de verificação.
  • Esse mesmo site que checou os fatos diz que a postagem é de 2013, mas não diz que a palestra foi gravada em 2013.
  • Segundo o site, a Bayer cancelou o registro do Monitor, mas não diz se as fazendas pararam de usar o mesmo produto de outros fabricantes.
  • O que é relevante para o consumidor de batata frita do McDonald's não é se o vídeo é antes ou depois do cancelamento do registro do produto, mas durante quanto tempo foi utilizado e quais os riscos à saúde dos consumidores.
  • Outro fato relevante para o consumidor é: existem outras redes de fast-food usando a mesma batata e o mesmo defensivo agrícola?
E assim as notícias vêm e vão, cheias de lacunas, de fatos distorcidos e de mudanças de foco.

Voltamos ao tempo em que a certeza da verdade não estava ao nosso alcance. A única diferença é que  hoje ela não está nas mãos de ninguém e ao mesmo tempo nas mãos de todos. Cada um com o seu fragmento.

Nos resta escolher nossa fonte de notícias, por algum tipo de afinidade ou relevância nas redes sociais, o que, nem de longe é garantia de fidelidade narrativa.

Mas não se anime!

Caso sua fonte se torne conhecida demais, influente demais ou tenha mais seguidores, mais likes, mais views, mais compartilhamentos ou mais engajamento que a média, será furiosamente mergulhado no brejo onde jazem, quase sem credibilidade, todos os meios de comunicação atuais.

Fontes:

quarta-feira, 12 de julho de 2023

ETARISMO: QUAL É A BRONCA?

Ficar velho está longe de ser a pior coisa da vida. É claro que a juventude, o saudoso tônus muscular de antigamente, o colágeno, a agilidade e a coordenação motora fina fazem falta. Mas isso está longe de ser uma reclamação, afinal tenho saúde, vitalidade e não tenho limitações físicas além da miopia que me acompanhou a vida toda. Sendo assim, esta não conta como limitação já que vejo o mundo através de lentes corretivas desde que me entendo por gente.

No entanto, é raríssimo encontrar pessoas que já passaram dos 40 ou 50 anos que nunca tenham sequer pensado ou dito algo parecido com: "Eu mais jovem (ou com x anos), com a cabeça que tenho hoje...", seguido de algumas observações sobre os diferentes rumos que dariam às suas vidas caso não fossem inexperientes ou imaturos demais para enxergar a má escolha que fizeram no passado.

Já digo logo, não vou entrar na discussão metafísica que essa ideia suscita. É óbvio que a maturidade vem com o tempo. Além disso, existem centenas de paradoxos temporais exaustivamente explorados no cinema e na literatura mostrando que a vida vivida é melhor que a vida sonhada. E obviamente eu seria um jovem muito estranho se isso fosse possível. Mas não é disso que se trata, eu é que divaguei um pouco, me desculpe.

Como o próprio título da postagem diz, não é sobre ficar velho, é sobre como os "enta" são tratados pelos mais jovens.

Para quem não sabe, "enta" é qualquer pessoa que já passou dos 39 anos de idade. Desse ponto em diante o sufixo "enta" fará parte da sua idade.

Quando avançamos além dessa fronteira etária, o mundo parece querer revogar automaticamente tudo que sabemos sobre tecnologia, serviços e até mesmo sobre a linguística, principalmente em seus aspectos semânticos e sociais. Eita! Divaguei de novo, foi mal.

O que acontece é que, de uma hora para outra, parece que desaprendemos a lidar com tecnologias. Nossos celulares são arrancados de nossas mãos por parentes e atendentes por acreditarem que somos incapazes ou lentos demais para lidar com a tecnologia atual.

Em outras situações pedem para digitarmos em (e até apontam) teclados virtuais que já estão diante de nós. Nos mostram em qual lugar da "maquininha" devemos aproximar nossos cartões (mesmo com o símbolo aparecendo na tela ou impresso no corpo da máquina) e demais "gentilezas" do mesmo naipe.

Há também o etarismo físico, mais comum nos homens: são passageiros cedendo lugar em transportes públicos, e pessoas fisicamente mais fracas que eu voluntariando-se para carregar bolsas e sacolas, quando eu as carregaria junto com as bolsas e as sacolas se fosse necessário. Mas esse é menos grave, pois tem a ver com a ignorância alheia sobre a força e a resistência física dos mais velhos.

Saiba que não sou contra assentos preferenciais nem acho errado o sentimento piedoso de simpatia para com os idosos. A subestimação que é o problema. As pessoas se dirigem a nós com uma irritante paciência disfarçada de gentileza. Falam conosco como se estivéssemos acabado de chegar à terra vindo do planeta "Velhurno" e não conhecêssemos as tecnologias nem como interagir com os terráqueos.

Existe uma força invisível tentando nos afastar da vida cotidiana, roubando páginas dos nossos papéis na sociedade, querendo nos convencer que agora existe um narrador contando a nossa história em terceira pessoa.

Nossas habilidades não estão cristalizadas no passado, estamos acompanhando a evolução do mundo e somos plenamente capazes de lidar com eles. Não existe essa ideia de que estranhamos as novas tecnologias.

E a pergunta é essa mesmo: "Qual é a bronca?" Essa era a pergunta que meu pai fazia em casa, e provavelmente no trabalho, quando algo precisava ser resolvido por ele. Carrega a ideia de resolutividade. Quem usa essa expressão veio para resolver, não para tentar. Típico da minha geração.